sábado, 25 de março de 2017

BOA NOITE

JEAN-LUC NANCY

No Donne Moi Ma Chance, o poeta Fernando Machado Silva tem vindo a partilhar reflexões de Jean-Luc Nancy sobre o corpo. Serviço público pelo qual devemos estar gratos: aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui. Fragmento 54:


O corpo, a pele: tudo o resto é literatura anatómica, fisiológica e médica. Músculos, tendões, nervos e ossos, humores, glândulas e órgãos são ficções cognitivas. São formalismos funcionalistas. Mas a verdade é a pele. Está na pele, é feita pele: autêntico campo exposto, toda virada para o exterior enquanto, simultaneamente, envolve o interior, um saco repleto de borborismos e fetidez. A pele toca e faz-se tocar. A pele acaricia e afaga, magoa-se, arranha-se, comicha. É irritável e excitável. Ela apanha o sol, o frio e o calor, o vento, a chuva, ela inscreve marcas no interior – rugas, manchas, verrugas, escoriações – e marcas no exterior, por vezes as mesmas ou então fendas, cicatrizes, queimaduras, cortes.

IGUALDADE

A igualdade sofre deste tipo de acidentes: é boa, no geral, apenas enquanto a desigualdade nos prejudica. Quando deixa de nos prejudicar, a desigualdade passa, de ordinário, a fazer parte da ordem natural das coisas.


 Aqui.

ALGUÉM QUE ME COMPREENDA


Eu era um tipo que se dava bem com a solidão; sem ela, era apenas mais um homem sem comida ou sem água. Enfraquecia a cada dia passado sem solidão. Não me orgulhava da minha solidão; mas dependia dela. A escuridão do quarto assemelhava-se à claridade para mim.

Charles Bukowski, in Factotum, trad. Vasco Gato, Alfaguara, Março de 2017, p. 35.

BOM DIA


que belos 
             os cabelos
cabe lê-los
        de tão belos 
los pelos más bellos 
os cabelos os cabelos 
       que belos cabelos
a cabo de lê-los
acabo de vê-los
                       los más
bellos pelos cabelos

sexta-feira, 24 de março de 2017

INFORMAÇÃO


A quem esteja interessado: para encomendar os livros da volta d’ mar, basta enviar um e-mail para voltadmar@gmail.com dizendo qual(ais) livro(s) deseja adquirir. Na resposta receberá confirmação do pedido. Mais informações: aqui. Texto de apresentação da Maria João Lopes Fernandes: aqui. A minha enorme gratidão ao Teatro da Rainha pelo acolhimento. Muito obrigado a todos quantos compareceram. Saúde,

O MUDO ABIBO


Ilha de Moçambique
4 de Agosto de 1899

   Apareceu-me hoje de manhã no Tribunal um preto muçulmano, em estado andrajoso e, para mais, cego de um olho e mudo, o que, como está bom de calcular, gerou sérios problemas de comunicação. Acresce que não compreendia Português e, aparentemente, tampouco encontrava motivo para a sua detenção, pelo que se encontrava bastante agitado, chorando e esbracejando, a um tempo. Condoído da sua figura patética, averiguei o que se passara.
   Abibo, é esse o seu nome, chegara ontem do continente, mais precisamente de uma das praias que se avistam da costa ocidental da Ilha, e desconhecia por completo as normas desta municipalidade. Fôra apanhado a defecar na praia como é uso na sua terra, até por aí não haver pedagogia em contrário, latrinas ou bacios. E, até com certa lógica, não acham os nativos melhor sítio para fazerem as suas necessidades, postoque a água do mar, com que se lavam depois do serviço, se encarrega em seguida de levar a imundice para longe. O hábito só pode, porém, ser considerado menos mau em locais onde não haja senhoras, o que não é aqui o nosso caso.
   E foi assim que um sargento do exército foi alertado para o sucesso ao ouvir os gritos de Madame Benoit, uma viúva francesa que aqui permaneceu após a morte do marido, que jazia quase desmaiada no pavimento, tomada de indignação exacerbada pela visão do traseiro do mudo Abibo.
   O mudo vai ser amanhã presente ao Juiz, embora se adivinhe que o esperam já uns quantos dias de cadeia, por não ter com que pagar a elevada coima correspondente ao crime em causa.
   Não se sabe, aliás, se será acusado de despejos ilícitos ou de atentado ao pudor. O que quer que seja decidido, o caso foi motivo de farta risota entre o pessoal do Tribunal e apressei-me a espalhar a anedota, no que fui coroado de êxito.

Mariano Gracias


Miguel Martins, in Muhípiti, Erasmos, 1997, p. 49.

AGUSTINA

Sábado passado, desabafava o desencanto fomentado pela actividade livreira. A gente fica a perceber o país em que vive. E dei exemplo: em 9 anos de trabalho numa livraria, não me recordo de ter vendido um único livro da Agustina Bessa-Luís. Isto é um facto tão mais chocante para mim, quanto ao contrário do que por aí* se supõe sou um homem (ainda por cima de esquerda) que lê Agustina. Pouco, é certo, mas leio. Muitas vezes me repugna a lamúria geral em torno da desgraça. As livrarias independentes declaram falência ao som de carpideiras que nunca nelas meteram pé, quanto mais comprar um livro. O A. Dasilva O. disse-me em tempos que fechou a Pulga porque estava farto de aturar tipos que o visitavam mostrando os livros que tinham comprado na FNAC. Esta é a realidade do país. As pessoas choram o fim de um mundo, sem que façam o mínimo para que esse mundo não tombe. A minha mulher diz que sou catastrófico, mas assisto a tudo isto com repulsa indisfarçável. Não é muita a indignação que por aí se ouve face ao caso Agustina, mas é alguma. Entretanto será mais. Ora que se fodam. Entrem numa livraria e peçam A Sibila, O Manto, o Vale Abraão. Não temam estar a contribuir para uma maquiavélica acção promocional, como já ouvi. Serão absolvidos pelo facto simples de terem adquirido bons livros, de uma das nossas maiores escritoras vivas. Quando falecer, já não vale. Miserável país de carpideiras hipócritas, ainda te admiras que lá do norte te reduzam a putas e vinho verde? 


* Página não encontrada cujo conteúdo era mais ou menos este:


quinta-feira, 23 de março de 2017

EUROPE IS LOST

BAIRRO

O Luís regressou ao bairro. E enquanto regressava, foi anotando o que se perdeu, o que se mantém, foi recordando, constatando o quão impossível é reviver. Não há glória alguma nestes regressos, a memória é uma função que apenas nos liberta do esquecimento. O mais é derrota, nostalgia, a puta da saudade. Sobram como fogachos “breves imagens vivas” (roubo a expressão a Breton). Há tempos, também regressei ao meu bairro. A fachada da casa onde vivi os primeiros 11 anos mantinha-se, mas o asfalto percorrido era outro, a envolvência era outra, os cheiros eram outros. No meu bairro já ninguém coze o pão, a tasca onde bebi as primeiras ginjas desapareceu, os olivais deram lugar a mais casas, o areal deu lugar a mais casas, o pântano deu lugar a mais casas. Desci ao açude para ver o rio, mas encontrei apenas um charco. Lama, canaviais, hortos ao abandono. Apenas dois patos grasnavam, fazendo emergir lá dos fundos da memória circunstâncias difusas. Duas bicas secas, uma de líquido amniótico, outra de sangue. Infindável matéria de poesia, estas coisas que se perdem e se tornam ruína. O tempo é em si mesmo uma elegia. Os escombros estão na moda, nunca antes se sublimou tanto a desolação da paisagem. Pessoas reencontradas são incapazes de falar do presente, as palavras não saem, tudo aponta para o passado. Lembras-te quando?... Achados e perdidos, Portugal em ruínas, abandonados, toda uma estética da devastação popularizada em horário nobre. Nostalgia, saudade. Há que fechar a janela à saudade:


janela

passei pela rua
olhei a janela
já não vives aqui
foste embora
fechaste a janela
para sempre



Luís Paulo Meireles, in bairro, volta d’mar, Junho de 2016, s/p.

ANTI-ELEGIA PARA O MEU FINAL


Há-de surgir o dia em que a memória
será um salão vago de onde levaram
os móveis, os espelhos, o riso que ecoava,

e os rios deixarão de correr só um momento
e um veleiro arderá suspenso em suas rotas
com uma chama fria, foto de um instante

congelado no tempo em que os rostos são
uma pira, onde o lume de neve os queimará
sem ruído e sem pena, porque tudo se gasta,

e as palavras, que deram nome a seres e a coisas,
serão a nulidade mais cansada
e, por tanto as saber, as escusava,

e nada ser verdade senão a hora breve,
mesmo essa sem mais importância,
que é de imagens que os olhos sobrevivem

e fugazes se tenham ido a correr,
a ninguém pertencendo, nem mesmo a elas,
porque o passado então será

inútil o futuro, e o presente arderá,
e rio-me com esta subversão, este fósforo,
esta chama de tempo confuso

diante de um antigo deus que usava
lítico em seus altares
o tempo como um ceptro poderoso.


Nuno Dempster (n. 1944), in Dispersão - Poesia Reunida (2008). Estreia tardia, porém ousada, com um extenso volume de poemas reunidos intitulado Dispersão. Seguiram-se diversas recolhas, mais breves, mas invariavelmente competentes nos domínios temático e formal: Londres (2010) – poema longo marcado pela confluência de tempos distintos num só espaço -, K3 (2011) – extraordinária evocação da guerra colonial portuguesa -, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo (2011) – depurada desconstrução do mito amoroso -, Elegias de Cronos (2012) – desmistificação do presente à luz de um passado heróico -, Na Luz Inclinada (2014) – o tempo, sempre o tempo, pautado por uma saturada passagem das estações. A publicação tardia confere a esta poesia uma espécie de exílio geracional, potenciado pelo distanciamento crítico da actualidade que se empenha em reflectir o mundo sem resvalar para os abismos decadentistas de muita da produção poética corrente. Irónica quanto baste, não prescinde de uma lente clássica que oferece os contrastes da História, exercendo desse modo uma espécie de recuperação/conservação do belo que é outra forma de resistência no interior do caos. Memórias pessoais dialogam com obras alheias, numa proficiente “polemização” interior da qual sai sempre a ganhar o leitor.  

quarta-feira, 22 de março de 2017

DEFINIÇÃO DE BELEZA



Pela minha parte, escolhi proteger-me o mais possível. Nem tenho de me forçar a isso, detesto tudo o que abole a fronteira entre o público e o privado. É assim mesmo, está na minha natureza, direi mesmo: é a minha norma. Sinto-me aterrorizada pelas redes sociais e os rumores que propagam. Detesto a exposição íntima. Nunca abri a minha porta, para uma reportagem, às câmaras de televisão. Não faço tweets, mostro tanto menos as minhas fotografias de família ou de férias no Facebook quanto não tenho conta no Facebook, e limito ao estrito mínimo as minhas trocas informáticas. O que há de odioso no mail, é que é intrusivo e exige uma resposta imediata. Como se eu passasse os meus dias em frente de um ecrã! O meu trabalho consiste em estar num ecrã, não em frente.

Catherine Deneuve, respigado aqui.

AS FOTOS DO TERROR

A exibição descontrolada das fotos do terror é em si mesmo um terror. Enquanto não tivermos jornalistas que o percebam, enquanto não tivermos uma sociedade civil que o entenda e se contenha na exibição do terror, favorecendo assim o fim último do medo, estaremos condenados a perder esta guerra.

A EUROPA DE DIJSSELBLOEM



Quando um tipo com o nome esquisito de Jeroen René Victor Anton Dijsselbloem anda nas bocas do mundo, não pode ser por bom motivo. Chamemos-lhe René, para simplificar. Fico a saber pela Wikipédia que é neerlandês, esse pequeno país do norte da Europa que tanta coisa boa tem gerado. Quando por lá andei, fiquei maravilhado com a qualidade e a quantidade das putas no Red Light District de Amesterdão. Incontáveis números de contorcionismo, fetiches inimagináveis. Casa cheia para todos os tipos de taras e manias. Estes holandeses são uns maganões de primeira, vivem nos Países Baixos mas nós não lhes chegamos aos calcanhares. O mais que nos sobra é uma janela escondida numa rua obscura de Aveiro. Eles têm montras inteiras, de três metros de largura, e muita oferta a céu aberto.
Gosto dos holandeses. Namorei em tempos com uma holandesa. O irmão dela bebia que se fartava. É impressionante o que os holandeses gastam em copos. Basta seguir-lhes os passos da selecção nacional de futebol para ficarmos incrédulos. Esqueçam as cenas tristes de andarem a humilhar mendigos antes dos jogos, é tudo dos copos. A malta diverte-se com copos e depois faz assim umas coisas parvas tipo humilhar mendigos e ir às putas. Enfim, para que fizemos nós o nosso All Garve senão para agradar aos holandeses? Aposto que o camarada René adoraria passar uma temporada no nosso All Garve. Daqui lhe endereço o convite, camarada, para em alternativa visitar-nos em São Martinho do Porto, onde temos uma já bem apetrechada comunidade de neerlandeses, sempre alegremente sentados nas mesas dos cafés a bebericarem vinho branco e cerveja Sagres. Uns bêbados… diríamos, não fossem tão bons clientes.
Infelizmente, ainda não chegámos aos pés dos Países Baixos e ficamo-nos por poder oferecer boa cerveja e melhor vinho. Casas de putas, só às escondidas. O mesmo para os charros. A gente observa o René e vê que ele vem de paragens liberais, lá na terra dele é tudo às claras. Bem me lembro da moca que apanhei numa coffeeshop com ementa inigualável. Variedade impressionante. Como poderia Van Gogh ter vingado? Andava a pintar a realidade tal qual os holandeses a percepcionam, depois de uma visita à coffeeshop com paragem no Red Light District. Portanto, René, estamos falados. Copos e gajas não são para quem quer, são para quem pode. E vocês podem.
Não podem é olhar para nós, os do sul, como se por sermos do sul algo nos diferenciasse… É verdade que temos o sol e as praias e… Ups, alto e para o baile. Salto um parágrafo na biografia do cabeça de gel e dou com isto:

«Jeroen Dijsselbloem estudou economia agrícola, com foco em economia empresarial na Universidade de Wageningen (1985-1991). Terá realizado investigação na área da Economia Empresarial, no University College Cork, na República da Irlanda (1991), com o objectivo de obter um Mestrado, sem no entanto o concluir. Apesar de não ter concluído os estudos deste curso de Mestrado, entre Novembro de 2013 e Abril de 2014, o grau de Mestre constou da sua biografia oficial, até o mesmo ser desmentido por parte do University College Cork e da National University of Ireland».

Ora queres ver que temos aqui mais um Relvas? De facto, não é nos estudos que esta malta investe recursos. Quem precisa de estudos para chegar a um dos mais altos cargos políticos desta Europa à deriva? Precisamos é de tipos que cuspam as bocas certas, fazendo o serviço a quem manda e garantindo posição entre quem governa. O resto é copos, e gajas, e charros… sejam a sul ou a norte. E já agora, um grave problema de gosto ao nível capilar. Tanto gel pode dar nisto, o cérebro fica pastoso e as sinapses atrofiam. A única vantagem é passar a boca a cuspir o que vai na cabeça, sem filtros, e a gente regozijar com o brilho da verdade. Ah ele é isto? Estamos bem entregues. 

terça-feira, 21 de março de 2017

DIA DA POESIA


OS EDITORES





Falidos a priori, sabem que em muitos postos de venda pouco mais poderão almejar do que uma prateleira escondida. Devemos-lhes a obstinação, uma vontade que virá porventura da mesma fonte que impele aquele que escreve a escrever. Uma vontade de fazer. De certa forma, editar é escrever. Não me refiro aos charlatães que de cidade em cidade apregoam o elixir da eternidade. Banha da cobra compra quem quer, mas compra, isto é, assume o custo material, a despesa, paga. Depois bate à porta a perguntar por si mesmo e não se encontra, dá com as fuças no descaso, cai em si, sente-se traído. A vaidade tem seus traumas. O editor não se faz pagar senão pelos livros que vai vendendo, assumindo riscos e investindo na esperança de um retorno. Sonha com lançamentos onde pelo menos a produção do objecto fique saldada. O mais será lucro. O autor sonha com simplesmente escrever, não ter que fazer o frete promocional da obra. Quando é frete. Excluirei os burlões, os tais que se fazem pagar publicando tudo quanto lhes seja proposto desde que a preço de tabela. Penso nos integrados, com colecções de tiragem reduzida percorrendo a via-sacra dos mercados. Três meses de validade numa livraria, com sorte em zona visível, para logo encontrarem o caos de um backoffice onde adquirirão a mesmíssima função reservada a qualquer um desses objectos que dão pelo nome de livro: ora créditos, ora débitos. O autor não pensa no assunto, o poeta não sabe, mas no final tudo acaba reduzido a isto, um tango de créditos e de débitos. A sustentabilidade é garantida pela quantidade, pelo acaso, por um prémio que abone publicidade e promoção, pelas redes de simpatia, pela recensão, por um título que ofereça fôlego financeiro, pelas parcerias com instituições dispostas a suportar, custear, patrocinar. Raramente a sustentabilidade se sustenta a si mesma, pelo que acabaram os exclusivos. Penso nos desalinhados, carregando às costas gozo e fome. Encontram em escassas livrarias uma hipótese de escoamento, investem nos sítios, nas redes sociais, em feiras, festas, encontros, soirées. Falidos a priori, optam por custos mínimos na produção e na distribuição. Com sorte, poderão fazer algumas reimpressões que irão dando para suportar a despesa e manter o gosto. Cada novo livro há-de ser uma nova aventura. Os desalinhados cultivam seus territórios. É tanto o papel que se imprime, são tantos os títulos, as palavras, as ideias, que seria absurdo tentar acompanhar o andamento da carruagem. Velocidade de cruzeiro que mantenha aberta a janela do fazer. Há nisto gente que são verdadeiros heróis, tudo no nosso tempo se lhes opõe. É verdade que nunca como hoje foi tão fácil e barato produzir um objecto, mas também nunca como hoje foi tão difícil respeitar um critério, manter os níveis de exigência, resistir à tentação meramente lucrativa, sustentar um projecto de saber. Isso. Um projecto de saber, um projecto que se distinga dos inúmeros elixires que ocupam o espaço e nos sufocam com promessas vãs. Raramente falamos dos editores porque eles executam o menos idílico dos papéis, obrigam-nos a pensar a realidade sem filtros, desligam-nos a antena do sonho sempre que neles pensamos. Paradoxalmente, parecem muitos deles saídos de um universo paralelo, de uma dimensão onírica onde as palavras do poeta tomam um sentido diferente: o editor quer, o homem sonha, a obra nasce. Semideuses, então, de uma estranha vontade, movidos a paixão e teimosia, os editores merecem ser falados neste dia. Todos os que realmente assim devem ser invocados, independentemente de seus feitios, têm uma missão que transcende as peias do negócio, a nobilíssima missão de insistir num lugar de sobrevivência para o saber. Não desistiram da cultura. Deus lhes pague.

segunda-feira, 20 de março de 2017

CHUCK BERRY (1926-2017)


ONE NIGHT STAND

Realizei em tempos hercúleos esforços de compreensão, pretendia saber o que está por detrás do pensamento das pessoas para quem a vida dos outros é sempre um problema. Talvez possa explicar-me melhor referindo-me ao ambiente social da terra onde nasci e fui criado nos primeiros 17 anos de vida, anos sufocantes de observação constante, rodeado de medos e de receios, sendo permanentemente julgado por quem, pensava eu, não tinha vida própria para julgar. Por vezes, era levado a pensar que por detrás de quem passava a vida a fazer dos outros um problema… não havia vida alguma. Errado. Há uma vida, uma vida como a de qualquer outra pessoa, motivada, alicerçada, estimulada pela vida dos outros. 
Ora, a vida dos outros pouco me importa. Quero dizer, o modo como a levam. Pouco me importa até constatar que levam a sua vida preocupados com a minha. Bastaria dizer que dispenso tais preocupações, que desobrigo todos de tamanhos cuidados. Se algum dia me virem doente, deixem-me em paz comigo mesmo e com as minhas doenças. É só o que peço. Em vão. Seres existem neste mundo que se alimentam de preocupações, buscam porventura a santidade, acordam e deitam-se a pensar em estratégias para melhorar a vida dos outros. Do meu ponto de vista, têm um problema de fabrico dificilmente reparável. Esse problema reflecte-se em que quase sempre para essas pessoas melhorar a vida dos outros é proporcionar-lhes uma vida como a deles, isto é, padronizando comportamentos, tornando toda a gente cada vez mais igual. Daí que evangelizem. 
Evangelizar significa igualar. Poderia significar qualquer coisa como “criar condições para que o ser de cada um se revele na sua diversidade”. Mas isto é complexo, demasiado complexo. É muito mais simples e eficaz fardar o ser de cada um. O problema está em que quando vestirmos todos a mesma farda, deixará de haver quem precise de nós, deixará de haver quem, no fundo das nossas vontades, necessite de ser apoiado, auxiliado, ajudado pela nossa incomensurável ânsia de caridade. Seria um descanso se partíssemos logo do princípio de que em essência somos todos iguais, até porque somos todos filhos de Deus e à sua maneira e semelhança fomos gerados. Fala um ateu.
Estais recordados, porém, do que foi a discussão acerca da Interrupção Voluntária da Gravidez, de como havia tanta gente preocupada com as gravidezes dos outros, tanta gente emprenhada de preconceitos que pretendiam impor aos outros. Em matéria de eutanásia, coloca-se exactamente o mesmo problema. É uma chatice isto de não nos bastar a vida dos outros, queremos também assaltar-lhes a morte e o sofrimento. O mundo seria mais simples, julgo até que mais saudável, se a cada ser humano fosse dada apenas oportunidade de dizer o que quer para a sua vida, que é sua e de mais ninguém, sem ter de se sujeitar ao julgamento daqueles para quem a sua vida não faz sentido sem aquilo a que chamam, vá lá, aconselhamento sobre a vida dos outros. 
É uma chatice chegar a este ponto tão confuso. A cada qual a sua vida, defendo. Mas e se a vida de alguém for essa coisa de passar o tempo todo a tentar definir a vida dos outros? Deverei eu censurar uma vida assim? Poderei julgá-la? É de facto uma chatice. 
Um exemplo mais simples, ao qual acabei de chegar via Provas de Contacto. Um sítio intitulado datesCatolicos (dC). Temos invariavelmente como fundo um rapaz e uma rapariga, não há dates para rapazes com rapazes ou raparigas com raparigas. Já de si, estabelece-se aqui uma diferenciação de princípio. Para aqueles católicos os dates só fazem sentido no domínio da heterossexualidade. O dC ajuda-nos, que estamos muito precisados, a encontrar uma cara-metade católica, desde que seja do sexo oposto, com simplicidade e diversão, propondo um “teste de combinação de inspiração cristã” onde aqueles que ousam constituir família vislumbraram nos caminhos do Senhor o parceiro ideal para casar e ter filhos (de preferência concebidos imaculadamente). A perspectiva do mundo que defendem: nasces, casas, reproduzes, morres, tudo no seio dessa muralha protectora a que damos o nome de família. 
Como não percebo nada do assunto, mas gosto de literatura, permitam-me que observe a impertinência da citação de Goethe no termo da descrição deste conceito dC. Afinal era o poeta alemão quem também dizia não se admirar de Cristo Nosso Senhor ter gostado de viver com putas e pecadores. Pois se o mesmo se passa comigo! Palavra de Goethe.
Aparte realizado, confesso (o verbo é este) uma certa relutância perante o fenómeno dC. Não restam dúvidas que estamos perante mais uma máquina de fardar corações, sendo que num mundo ideal o que era mesmo bonito era o católico encontrar a muçulmana da sua vida, ou a muçulmana conhecer a judia do seu coração, ou o ateu apaixonar-se profundamente pelo budista dos seus olhos. Enfim, fico na esperança de que a vida dos outros possa simplesmente ser a sua vida, um caminho de autodescoberta sem intermediários para quem pontes significam curvas no sentido de um destino único. Vã é a minha esperança, bem sei. Ninguém desta gente quer saber de ecumenismo para nada.
Há muita gente preocupada com muita gente, sendo que pelo menos metade desta gente toda, de tão preocupada andar com os outros, até se esquece de que tem uma vida própria para viver. Os trilhos da santidade vão dar a isto. E é uma chatice que assim seja. Bom dia:


sexta-feira, 17 de março de 2017

PRIMEIRO ESBOÇO DE UMA MÃO


   Agitemos aqui A MÃO, a mão do Homem!

1

   A mão é um dos animais do homem: sempre ao alcance do braço que sem cessar a alcança, o seu morcego diurno.
   Em repouso aqui ou acolá, pomba ou rolinha, muitas vezes então reunida à sua companheira.

   Depois, forte, ágil, esvoaça em volta. Esconde a sua fronte, passa diante dos seus olhos.
   Prestigiosamente representando as Euménides.

2

   Ah! É também para o homem como que a sua barca com amarra.
   Puxando como ela até ao limite da corda; baloiçando o corpo sobre um e outro pé; inquieta e teimosa como um cavalo novo.
   Quando a vaga se agita, fazendo o sinal de nem bem nem mal.

3

   É uma folha mas terrível, pregnante e carnuda.
   É a mais sensitiva das palmas e o caranguejo dos coqueiros.
   Vejam a direita a correr aqui por esta página.

   Eis a parte do corpo melhor articulada.
   Há um boi no homem, até aos braços. Depois, a partir dos pulsos - onde as articulações se desmultiplicam - dois caranguejos.

4

   O homem tem o seu botão electro-magnético. Depois o seu celeiro, como uma abadia reconvertida. Depois os seus moinhos, o seu telégrafo óptico.
   De lá saem por vezes andorinhas.

   O homem tem as suas bielas, as suas charruas. E a sua mão para os trabalhos de rigor.
   Pá e pinça, croque, remo.
   Tenaz carnuda, torno.
   Quando uma faz de torno, a outra faz de tenaz.
   É também esta cadela que por tudo e por nada se deita de costas para nos mostrar o ventre: palma oferecida, a mão estendida.
   Servindo para agarrar ou para dar, a mão para dar ou agarrar.

5

   Ao mesmo tempo marioneta e cavalo de lavoura.

   Ah! É também a andorinha desse cavalo de lavoura. Pica no prato como o pássaro na bosta.

6

   A mão é um dos animais do homem; muitas vezes o último a deixar de mexer.

   Ferida por vezes, arrastando pelo papel como um membro retesado uma caneta enxertada que aí deixa o seu rasto.
   Esgotada, ela pára.

   Arrepanhando então o lençol ou amarfanhando o papel, como um pássaro que morre crispado na poeira, - e aí se abandona enfim.


Francis Ponge (n. 27 de Março de 1899, Montpellier, França - m. 6 de Agosto de 1988, Le Bar-sur-Loup, França), in Alguns Poemas, tradução de Manuel Gusmão, Edições Cotovia, Fevereiro de 1996, pp. 73-75.

CONVITE


quinta-feira, 16 de março de 2017

SONHO E UTOPIA



Tento imaginar que resposta poderia um artista como o marroquino mounir fatmi dar a um político declaradamente xenófobo na linha de Geert Wilders. Depois leio no Coma Manifesto uma declaração de princípio assaz expressiva: J'ai fait un très grand effort pour cesser de rêver. Procuro conciliá-la com a mensagem de abertura no sítio oficial do artista: Those who can still dream do not sleep any more. Uma arte desprovida de sonho é uma arte vigilante, a sua relação com a realidade pauta-se por uma leitura ainda alegórica, mas fortemente sugestiva no seu tacticismo político. Wilders sonha com uma Holanda expurgada de marroquinos, tem insónias a pensar como seria pura e bela a sua nação sem esses vírus vindos do Norte de África que a contaminam. Um artista marroquino interrompeu o sonho para se dedicar a representar o mundo em que Wilders actua. 



É, sem dúvida, imperioso que o sonho seja interrompido para que sobre o mundo em que vivemos seja possível exercer alguma lógica, encontrar algum sentido, vislumbrar os mecanismos que numa caótica rede de interesses mantêm a roda em movimento. As mulheres bomba de fatmi estão armadilhadas com cintos de livros à volta da cintura, a sua letalidade é o conhecimento e a cultura, aqui sintetizado num objecto que associamos naturalmente à erudição, à ciência, ao saber. É especialmente significativo que sejam mulheres.



No conjunto intitulado Save Manhattan transformou dois exemplares do Alcorão em representações das Torres Gémeas. Nova Iorque é reconstruída numa maquete com cassetes VHS empilhadas e numa outra com aparelhos de som. Som e imagem, ruído, livros, reúnem-se de um modo singular. A leitura elaborada por mounir fatmi é artística, mas não deixa de conter uma dimensão política intencionalmente subversiva. 



Ainda que gere controvérsia e provoque surtos de indignação, jamais será tão nociva como qualquer leitura levada a cabo por um político no poder. A questão que se nos coloca é, pois, acerca da nocividade do sonho na política ou, mais uma vez, acerca da nocividade das utopias. Uma interpretação precipitada levar-nos-ia a concluir ligações directas entre o sonho e a utopia. Não creio que assim seja. À utopia nós associamos tanto o impossível como a perfeição, uma edificação insular do bem e do belo a servir de horizonte. No fundo, a suma utopia pode ser a arte. Jamais a política. Esta é do domínio do ideal, como queria Platão, um domínio do qual se expulsam poetas e no qual se admitem mentiras úteis. O artista está pois condenado a representar o mundo no qual o político actua, intervém como um reflexo, não delineia territórios, antes provoca a sua ruptura mostrando quão exíguos e sufocantes estes podem ser. É neste sentido que será sempre um exilado. Quando a política o acolhe, é para o assimilar e posteriormente evacuar como a um dejecto. A primeira resposta terá pois de ser a interrupção do sonho, como forma de resistência a uma soporífera condição.

"Religião e dinheiro; mas não filosofia, não história, não arte, não literatura."

(...)

O céu não precisa de justificação nem de legitimidade, mas da pergunta material destinada a conhecer; o céu precisa da física, o mais adiante é a arte. Fenecem a um tempo a filosofia e a história e esta realidade pode ser traduzida: desejando aproximar-se da verdade, e requerendo esse desejo a necessária exigência, libertam; perguntam e recusam o simulacro. Assim, é a filosofia considerada inútil face ao pragmatismo da vida, uma ocupação de quase-loucos ou quando muito de singulares inadaptados; a história, aceite com a condescendência que se reserva às fábulas morais; aceite porque ciclicamente necessária para legitimações de todo o tipo, com ou sem o pretexto da moda. É pois natural que a inexistência da filosofia esteja ao lado do triunfo do romance histórico – uma tutoria, por ausência e por efabulação.

(,,,)

Jorge Muchagato, aqui.

COLCHÃO

Há dias, ao chegar a casa, vi uma vizinha parada no meio do largo com um colchão na mão. Vestida de preto da cabeça aos pés, com lenço na cabeça, presumo que cumprindo o luto a que obriga a tradição cigana. Perguntei-lhe se precisava de ajuda a transportar o colchão. Respondeu-me com um sorriso. Agarrei de um lado, ela do outro, e enquanto o deslocávamos na direcção do prédio foi-me agradecendo, que Deus me pagasse, tinha encontrado o colchão junto ao lixo, estava em boas condições, havia que aproveitá-lo. Quando o largámos à porta do prédio, voltou a agradecer-me: que Deus me pagasse. Estava vestida de preto, da cabeça aos pés, com lenço na cabeça. Acho que se uma mulher quiser vestir-se de preto da cabeça aos pés, deve poder fazê-lo. Acho que se não quiser, ninguém a deve obrigar. Acho que as pessoas devem poder apresentar-se de acordo com as suas convicções, com a sua cultura, etnia. E acho que não custa nada ajudar alguém a transportar um colchão.  

quarta-feira, 15 de março de 2017

#95


Justin Vernon é um escritor de canções norte-americano que conquistou crítica e público sob a designação Bon Iver, publicando um primeiro álbum em 2008 – For Emma, Forever Ago -, ao qual se seguiu o homónimo Bon Iver, Bon Iver. Os adeptos da folk renderam-se-lhe rapidamente, pela aparência despojada das canções, pelos ambientes românticos de uma country adaptada aos tempos modernos, pela voz celestial e hipnotizante. 22, A Million (2016) desvia-se dos registos anteriores, não por abandonar os ambientes românticos e a voz celestial, mas por adoptar um universo hermético, tanto a nível visual, como no domínio dos arranjos, capaz de desconstruir uma imagem cristalizadora do autor sem rasurar definitivamente a raiz melódica que o define. Neste sentido, a manipulação da voz e dos instrumentos adquire uma enorme preponderância. Aos ritmos geralmente lentos e arrastados colam-se samplers de proveniência diversa, formando uma constelação de sons com forte significado simbólico. O segundo tema envia-nos para um espaço de estranha beleza que já não experimentávamos desde o álbum de estreia de Leila Arab, com paisagens sonoras distorcidas mas surpreendentemente atractivas tanto rítmica como melodicamente. Belo vídeo:


Sucede que Leila Arab era DJ, estava familiarizada com programações, samplers, manipulações sonoras através da tecnologia disponível. Sabíamos o que esperar dela. Bon Iver surge-nos de outras paragens, pelo que cabe interrogar: que caminhos para a folk nesta era revolucionária que atravessamos? Vale a pena “ouver” as canções deste álbum no Youtube, a partir dos suportes visuais que lhe foram dedicados. Também a nossa conceptualização visual do mundo está num processo de acelerada transformação, impulsionada pela disponibilização de aplicações que permitem observar um mesmo objecto sob prismas distintos de um modo instantâneo. A música de 22, A Million é caleidoscópica, na medida em que funde os espaços e tempos da tecnologia com uma espécie de desmaterialização dos sons provenientes dos instrumentos tradicionais. Talvez nada se anuncie numa canção como 00000 Million, a última canção do álbum, mas é impossível ficar-lhe indiferente como se nela não estivesse implícita uma profecia que nos instiga a decifrar o exacto momento histórico em que nos encontramos - tanto na relação que conservamos com a natureza, como na que mantemos com a criação artística:


terça-feira, 14 de março de 2017

20 ANOS


Em Setembro próximo cumpro 20 anos de palavras impressas. O primeiro dos crimes: aqui. Desses tempos, conservo apenas a epígrafe de Álvaro de Campos e uma forte amizade com o editor do opúsculo. Tudo o mais se perdeu. No próximo Sábado, lá estarei a dar o peito por nova publicação. A Grua nasceu neste weblog, ao contrário dos poemas coligidos numa plaquette intitulada Rogil, entretanto esgotada, que a Volta d’Mar me publicou há cinco anos. Esses poemas andavam espalhados por diários de férias. A Grua é um poema-sequência em 20 estâncias, coloca em cena um sujeito poético auto-exilado e um elemento paisagístico com o qual o sujeito estabelece um processo de identificação. Tem tanto de dramático como de visual. Agrada-me que tenha sido publicado pela Volta d’Mar, 20 anos depois da primeira insónia.

A GRUA

FITA MÉTRICA

A morte de Herberto Helder levantou a questão: quem é, agora, o maior poeta português vivo?

Desconcerta-me a simplicidade oferecida pelo meu amigo manuel a. domingos a tão intrincadas problemáticas. Custa-me aceitar que Herberto fosse o maior poeta português vivo à hora da sua morte, embora não tenha dúvidas de que era poeta. Finado o homem, não sei de todo quem é, quem foi ou quem deixa de ser o maior. Tenho até dúvidas sobre a existência de poetas vivos. Mas sobre a mensurabilidade de poetas, vivos ou mortos, recupero este micróbio inédito:

POETA NOVÍSSIMO

O grande-poeta encontrou-se com o poeta-cimeiro para discutirem se o mais recente livro do poeta-novíssimo podia ser considerado livro da maturidade.
Chegando a uma conclusão afirmativa, o poeta-novíssimo pôde assim ascender à condição de poeta-que-encontrou-a-sua-voz. Foi muito felicitado e não tardaram os convites para entrevistas e recitais.
Grande espanto causou quando, na primeira entrevista concedida, respondeu com as mãos às perguntas que lhe eram colocadas.

GAMA


III

Que espécie de palavra é esperança
É da cor da cinza
Sabe a feno antigo depois da chuva
Opaca ao tacto como o muro alto e branco
Cheira a traineiras
À corda húmida depois da pesca
O ritmo oscila na clave
O acento entre sílabas que conspiram átonas

Não vejo esperança na sintaxe
Uma apenas interjeição
e       e       a      a
s, p, r, ç, corroem a esperança
Deixam-na sem fundamento ou raiz

O  s  mata a esperança
A acção chegou ao fim sem nunca ter começado
Silêncio regresso sussurro soçobrar
O  p  impede-a de subir e sonhar
Prende-a à porta e à pedra pauper et paucrum
Mas o  r  lembra-lhe os curros com seus  r  de reprimir
Manda-a descer pelo filtro
Que lhe desfibra os raios e retesa os arames

O  n  desliga o nó descobre-lhe a nudez
Corta-a pelo núcleo
Mostra-a caída na neve negada
Nada ninguém nunca noite
Mas é o  ç  que amarra a nau ao fundo
Nem vermelho nem negro nem  c  nem  q
A palavra dobrando-se doce verga sorrindo
Açucarada com açucenas e açafates

Esperança deve escrever-se com  f
Que dá origem ao fogo à fonte à força
Faz-lhe falta o  t  metálico e vibrado
Com a seiva e a consistência de
Talo timbre
Torno tuba e tronco
O  d  aumenta-lhe a razão
Demonstra deduz debate e duvida

Esperança só é eficaz com  v
Onde reside a força e sopra o elemento
Onde a voz venta e vai veloz
Mas para que se erga no ar e voe
O  z  introduz-lhe o zip
Dá-lhe a fluidez do mercúrio
E a forma compacta da rosa
Duas vogais apenas para a esperança restaurada:  a,  i

Em Fatidiviz ainda ecoa um  r
Mas este agora é lógico
É o  r  da estrutura grupo e parte
Que liga para construir 
Que regressa para libertar
E assim Fatidiviz é o que vence o Fado qualquer
Grego ou latino opondo-se ao fatídico
É o que tem o Fiat


M. S. Lourenço (n. 1936 - m. 2009), in Arte Combinatória (1971). «Quanto a M. S. Lourenço (Manuel António dos Santos Lourenço, n. 1936), é um autor desconcertante, com momentos de completo acerto, pela intencional alternância, ou fusão, de processos e fontes: epigramas da mais elíptica sintaxe; evocações de certos ambientes históricos ou exóticos reconhecíveis, sumptuosos de imagens e raiados de absurdo, em prosa ou poema de larga respiração; paráfrases e justaposições de textos, com o sabor sugestivo e ao mesmo tempo evasivo de uma erudição deliciada à Ezra Pound» (A. J. Saraiva, Óscar Lopes, in História da Literatura Portuguesa). 

segunda-feira, 13 de março de 2017

(fragmento)

Fui invadido por uma alegria que não compreendo. Pergunto-lhe: que fazes dentro de mim, estranha alegria? Não me responde. Ignora-me, despreza-me. Sinto-a dentro de mim como a um bolor que se vai espalhando pelas paredes, um fungo corroendo-me nervos, artérias, espalhando-se pelo corpo na direcção do pensamento. Tudo em mim converge para o pensamento. Há muito parado, o coração é um lugar vazio. Calculo o mundo com paciência, gota a gota, milímetro a milímetro. Mantenho-me de pé. Por vezes mastigo o enfado, disseco a saturação com tragos de beleza líquida. Sento-me no chão a observar nuvens, fecho os olhos enquanto o vento me banha, suspiro. Esta intimidade enoja-me. Impacientam-me os sorrisos que constrangem o rosto, que o violentam sem dó nem piedade formando rugas que descem até aos ossos.  Não me dou bem com esta alegria, procuro afastá-la sem sucesso, toco em mim mesmo para provar que estou vivo e não me sinto. Devo estar morto. Que estranha alegria esta num corpo morto. Nada disto tem qualquer interesse, só a raiva com que desabotoamos os dedos para a vida tem algum interesse. É com os dedos que esgaravatamos a terra em busca da sede, é com os dedos. O indicador tatuado no selo. Questiono-me se não seria melhor mandar a alegria à favas, fazer do riso desbragado método para alcançar as lágrimas, chorar a rir, rir a chorar sem ser sentimental. Tudo pensamento, tudo corpo. 

ALGUÉM QUE ME COMPREENDA


   Subi e tomei o meu banho. Durante uma hora, fiquei deitado na água apaziguadora, a dormitar mas sem dormir. Para mim, um banho não era tanto a limpeza do corpo, era mais um refrescar da mente. Os meus pensamentos tornaram-se um céu de Verão, com imagens alegres a atravessarem-me a ideia como nuvens brancas: os veleiros de Newport Beach, a beleza pungente de Valli, o terceiro fairway no Fox Hills Golf Club, a prosa de Willa Cather. Juntamente com o meu banho vinham todas as coisas deliciosas, todas as coisas sedutoras, esplêndidas, suaves

John Fante, in Cheio de vida, trad. Rita Canas Mendes, Alfaguara, Outubro de 2016, p. 82.

O VOTO DELE

Gosto quando um escritor não se inibe de manifestar publicamente as suas inclinações políticas, sobretudo quando as mesmas fogem ao politicamente correcto. É isso que J. Rentes de Carvalho, há muito radicado na Holanda, faz aqui. Eu seria incapaz de oferecer o meu voto, mesmo que de protesto, a um político condenado por discurso de ódio. Wilders não quer marroquinos na Holanda, ironiza com a condenação de racismo de que foi alvo dizendo que os marroquinos não são uma raça, compara o Islão ao Nazismo. Paradoxalmente, a ideia de “desislamizar a Holanda” é muito mais parecida com a outrora intenção de expurgar a Alemanha de judeus. Os judeus que Geert Wilders admira, por nele tudo ser anti-Islão. É filho de uma mãe que emigrou da Indonésia, antiga colónia holandesa, para a Holanda, “pinta o cabelo de louro oxigenado”, faz da islamofobia uma bandeira. Ora, repugna-me todo o discurso político fundamentado numa retórica do medo. As fobias são inimigas da política. J. Rentes de Carvalho vota nesta criatura desprezível como forma de protesto, talvez pelas mesmíssimas razões que levam tantos turcos a manifestarem-se por um poder absoluto que Erdoğan se prepara para conquistar. Admirável mundo este em que democraticamente tantos antidemocratas podem almejar o poder.

domingo, 12 de março de 2017

VIAGENS NA MINHA TERRA #15


Percorro os arquivos da RTP como quem viaja no tempo, apercebendo-me que a viagem não me desloca nem do tempo nem do lugar onde me encontro. A paisagem de há 30, 40, 50 anos foi largamente transformada, mas o país mantém-se inalterado. Se um país são as pessoas que nele habitam, então conservámos a raiz de exílio que espalha pela atmosfera uma fragrância ao mofo dos que ficam. Uns forçados a partir, outros partindo porque não suportariam ficar, outros simplesmente atraídos pela alternativa da emigração, outros exilando-se dentro de si próprios, os que ficam só ficando por nada neles haver que reclame salvação. Caminham lentamente, cumpridores como um rebanho açoitado, de olhos cabisbaixos ou exibindo alegrias inconvenientes. Tudo parece em desacordo com tudo, Jorge de Sena aponta para o país do alto da sua exclusão, os mirones galanteiam as raparigas que embelezam as ruas com piropos de parco efeito. Mesmo que tenham mudado de indumentária, as pessoas insistem na pobreza de espírito. Viriato pousou a espada numa rocha e foi comprar gomas ao Centro Comercial. Será mesmo assim? Estarei a exagerar?
Cai uma chuva miudinha, caminho em solidão pelas ruas de Viseu. Estou alojado no Hotel Avenida, bem no centro da cidade, dizem-me que no quarto onde há anos terá pernoitado Humberto Delgado quando de uma varanda saudou a multidão que o aclamava em esperanças a breve trecho abortadas. Há placas comemorativas, fotografias que registam o facto histórico. Espanto-me sempre com a profusão de placas comemorativas disseminadas pelo país. Tendo passado por Nelas em busca do rastro do poeta António de Navarro, esquecido como convém aos melhores, verifico mais uma vez que a toponímia é a forma ideal de arrumar aquilo para que não queremos memória alguma. Noutras circunstâncias daríamos números às ruas e celebraríamos a memória dos que vale a pena recordar revisitando suas obras e feitos, mas quer o mínimo esforço que tonifica a nação placas de mármore como as que se oferecem aos mortos. As ruas cheiram mal, cheiram a placas toponímicas, é o cheiro dos cemitérios. Dar o nome de alguém a uma rua é oferecer-lhe o pior dos túmulos.
Acabo por encontrar Aquilino Ribeiro de costas voltadas para o mercado, numa escultura do cubano Yuraldi Rodríguez Puentes, sentado à secretária de trabalho observando os tais do mofo que, seis dias depois de ali ter sido inaugurado, banharam com ácido o bronze do autor de Terras do Demo. Talvez alguém perdido no tempo entre loas a Viriato e flores ao de Santa Comba Dão tenha idealizado o acto vândalo. Como sabê-lo? Certo é que mais adiante, rodeado de tascos, El-Rei D. Duarte mantém a sua impecável forma física, velando por todos quantos se excitam com um red light district à portuguesa perturbador dos bons costumes visienses. Subo à Sé Catedral e paro no meio da chuva a pensar em museus e monumentos e muralhas romanas e restos e rastos e rostos. Alguns esguelham-me com desconfiança, outros com desprezo, talvez ironia, parecendo perguntar: que faz aquele parvo à chuva? É à chuva que melhor se anda por terras do demo, respondo-lhes. Mas não me ouvem.
Também eu exilado no imo de mim mesmo, limito-me a trocar palavras circunstanciais com quem me serve o jantar. Outrora jornalista, regressado à terra, abriu um restaurante e procura refazer a vida. Quer saber o que faço por ali. Respondo-lhe que não sei, que vim em busca de poetas, passei por Mortágua mas já não encontrei o Fallorca, virei para Nelas mas ninguém sabia do Poema do Mar, subi a Lamego e era tudo Nossa Senhora dos Remédios, memórias da infância em turismo familiar, o Jorge Aguiar a contar-me de Tondela nervos que por lá ficaram, o Fausto Guedes Teixeira indeciso entre o amor e o ódio nestas tão estranhas terras do centro, um centro centralíssimo, nevrálgico, centro a norte, no esófago do país, centro diabólico. Outrora jornalista, abriu um restaurante e procura refazer a vida. Também este deslocado de si próprio, todos a desenrascarem-se com o ser aguardando exumação. Somos de um país que nos impede o ser, exigindo-nos que sobre ele inventemos o que não somos. Em nome da sobrevivência dizemos: não dá. E então dedicamos a vida à sobrevivência, pousamos a espada numa pedra e vamos ao Centro Comercial comprar gomas. 
Desvio-me para São Pedro do Sul em busca de repouso. Já me referi anteriormente a uma passagem termal por essas águas, não quero repetir-me. Por vezes, o corpo reclama seus spas. Sento-me à beira do Rio Vouga, escuto o passar das águas, há pontes belíssimas que as atravessam. No Hotel do Parque faz-se silêncio noite dentro, fecho os olhos a imaginar duas margens separadas por um caudal de águas chocas, uma ponte velha vitimada pela falta de manutenção. Sonho com margens separadas pelo tempo, o passado e o agora. Acordo estremunhado pela ausência de transformações de fundo, tudo permanece como estava apesar da paisagem transformada, o país mantém-se inalterado, um país de exilados que espalham pela atmosfera uma fragrância a bafio. Venho de uma zona de moinhos ao abandono, alguns recuperados para efeitos turísticos, mas em já praticamente nenhum deles demónios que valha a pena combater com espadas quixotescas. Não admira que Salazar tenha surdido destes ares, a ele devemos o bolor que ainda não expurgámos definitivamente das paredes da consciência. Que tantos ainda o amem, reforça-me as convicções.

A GRUA (por Sara Pinto)

sábado, 11 de março de 2017

NÃO HÁ COINCIDÊNCIAS

1. "Paulo Núncio mostrou uma grande elevação de carácter e o país deve muito ao doutor Paulo Núncio pelo trabalho de combate à fraude e à evasão fiscal", disse Assunção Cristas aos jornalistas.

+

1. O antigo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, Paulo Núncio, um dos nomes que está no centro da polémica sobre as declarações de transferências para offshores, foi advogado da petrolífera venezuelana PDVSA, responsável por uma boa parte dos 7,8 mil milhões que saíram do Banco Espírito Santo (BES) para o Panamá, noticia esta sexta-feira o Observador.

=

2. Foi literalmente aos molhos que os funcionários da sede nacional do CDS-PP levaram nos últimos - dias de Dezembro de 2004 para o balcão do BES, na Rua do Comércio, em Lisboa, um total de 1.060.250 euros, para depositar na conta do partido. Em apenas quatro dias foram feitos 105 depósitos, todos em notas, de montantes sempre inferiores a 12.500 euros, quantia a partir da qual era obrigatória a comunicação às autoridades de combate à corrupção.
(…)
Frisando que os 105 depósitos do CDS no BES foram feitos entre os dias 27 e 30 de Dezembro de 2004, "muitos deles com intervalos de minutos e a grande maioria em parcelas de 10 mil euros", os investigadores da PJ descobriram também que os recibos para justificar a entrada daquelas verbas nos cofres do partido teriam sido todos passados em datas posteriores aos depósitos. Os próprios livros com os talões de recibos teriam sido encomendados já em Janeiro de 2005.

Outros dados curiosos são os que se referem à identificação dos doadores. Os funcionários da sede nacional do CDS emitiram um total de 4216 recibos, neles anotando apenas o montante e o nome do doador, notando a PJ tratar-se provavelmente de dados fictícios, exemplificando com o "sonante e anedótico nome de doador "Jacinto Leite Capelo Rego", no valor de 300 euros".

sexta-feira, 10 de março de 2017

CONVERSÃO

Não me incomoda nada que as pessoas se convertam, que mudem de opinião, que dêem a volta ao mundo das utopias adoptando a cada dia uma nova, que voltem do avesso a consciência, até que se contradigam, que hoje digam uma coisa, amanhã outra, que ontem tenham sido fascistas e hoje se declarem comunistas, que ontem tenham sido maoístas e hoje se declarem católicos apostólicos romanos. A única coisa que me incomoda é que a conversão de nada lhes sirva. Podem apregoar os mais perfeitos ideais, podem advogar as mais beneméritas teses, podem bater-se pelo bem universal. Podem. No dia-a-dia, quotidianamente, rosto a rosto, continuam a ser umas bestas-quadradas, mesquinhas, hipócritas, insidiosas, maldosas. E nada fazem para o disfarçar. Que o bem lhes sirva para alguma coisa não é bem que nos seja dado a ver. Mantêm-se iguais a si próprias, de nada lhes serviu a luz do Senhor.


P.S.: há dias, colega de trabalho dizia em tom de desabafo: a mais frustrante das secções é a auto-ajuda, não há livro que valha a quem os procura. Daí que vendam tanto. Nem mais.

INSTANTÂNEO NA CIDADE TRANQUILA


   Com vento favorável, mesmo junto aos edifícios dos bancos e do grande escritório, pode sentir-se o cheiro do mar.
   Vem do cais, não é absoluto nem abafa as buzinas dos carros. Não leva o perdão aos sonhos dos homens curvados nos arquivos, nem é mesmo vigoroso como pensar de repente na morte, pensar na morte e trincar uma laranja.
   Mas com vento favorável boa vontade e raiva pode sentir-se, chega a sentir-se, o cheiro do mar


Jaime Salazar Sampaio (n. 1925 - m. 2010), in Poemas Propostos (1954). Embora tenha consolidado a sua produção literária essencialmente enquanto dramaturgo, começou por publicar poesia. O fascínio pelas vanguardas reflecte-se nas aproximações tanto à poesia experimental como ao teatro do absurdo. Autor de poemas breves, explorou com rigor as tensões entre o homem e a sociedade do seu tempo. Conseguiu com extrema simplicidade expressar a angústia e frustração do ser exilado em si mesmo, embora consciente da absurdez matricial da existência.