sábado, 24 de junho de 2017

«And you're ready now / For the harvest breed»


À CONVERSA COM STEINER

Ao retomar a tese sobre A Morte da Tragédia num ensaio intitulado «”A Tragédia”, Reconsiderada», George Steiner insiste numa noção de tragédia enquanto «ponto de encontro entre o metafísico e o poético». Subjaz a esta tese a ideia de que à tragédia é inerente uma relação entre o divino e o humano anterior à própria noção de Deus, ou seja, antes de se ter posto a questionar Deus o homem sentiu-se por ele abandonado. Como se Deus fosse um dado da razão, um dado claro e evidente da razão, porventura inato, uma espécie de estigma na consciência humana, o ADN dos desprotegidos, dos desamparados, dos desgraçados (a humanidade inteira). Não estará esta ideia viciada por um olhar histórico algo deslumbrado com tempos que somos incapazes de reconstituir sem apelar à imaginação? Terá mesmo havido nesse tempo da “tragédia absoluta” um sentimento de Deus diferente daquele que hoje nos governa? 

A morte de Deus instaurada pela modernidade reduziu a ideia de Deus, no sentido platónico de ideia, a um conceito. Deus passou a ser, como diria Ruy Belo, uma palavra que nos permite dar o nome de sagradas ou divinas a certas coisas. Uma mera palavra já não é uma ideia em sentido platónico, já não é o ser ao qual se chega pela iluminada prática da mente. Uma mera palavra é, de facto, outra coisa. É questionável que na cultura clássica tenha havido um sentimento de Deus, digamos, total, isto é, próximo ao sofrimento e à dor do desamparo. Chegam-nos desse tempo ecos ateístas quase totalmente rasurados pela historiografia oficial. E também podemos questionar até que ponto muitas das tragédias que hoje conhecemos e continuamos a admirar — da Antígona ao Prometeu Agrilhoado — não foram estratégias incipientes de questionar a subjugação dos homens ao abstraccionismo dos deuses. 

Enquanto representações de forças limite, e não podemos pensá-los de outra forma, os deuses da tragédia grega não provocam no homem algo de muito diferente daquilo que depois de Deus ter morrido o homem se tem encarregado de provocar a si mesmo: dor e sofrimento. Steiner afirma que o horror da história depois de 1914 é evidente. Mas já o era antes. Como pensar o Império Romano senão enquadrando-o num cenário de horror e de sofrimento? E a Idade Média, com suas altas fogueiras e pestes e perseguições e missões evangelizadoras? Não são também de horror os ecos que nos chegam dos rituais praticados por civilizações ameríndias praticamente extintas? O horror é o tom por excelência de um mundo colonizado, do comércio de escravos, da conquista das Américas. É o próprio Steiner quem num outro ensaio sintetiza muito bem a nossa história, ao afirmar que «os homens são primatas assassinos». 

Mas estes primatas assassinos, por alguma razão ainda inexplicável, escrevem poemas, arrancam tragédias da sua experiência do horror, concebem obras assombrosas que nos espantam como outrora, presumo, um fenómeno natural tão simples como uma lua cheia terá espantado os nossos antepassados. Talvez a tragédia tenha morrido, como morreu a poesia. Talvez estejamos a viver um longo e lento funeral da humanidade tal como a julgávamos conhecer. Ou talvez estes sejam tempos de alerta, tempos em que se torna claro e evidente, isso sim, que pouco sabemos ainda acerca de nós próprios, conquanto saibamos, e essa certeza ninguém nos tira, que somos primatas assassinos. Quanto a Deus, morto que nem a tragédia ou a poesia, pode por mim repousar lá de onde veio, na cabeça dos homens, desde que repouse na de cada um sem que cada um pretenda impor-se aos outros. 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

NAS NOSSAS ESTRADAS

(...)

Entre 2005 e 2015 morreram nas nossas estradas 6.694 pessoas, mais do dobro do número de vítimas do ataque às Twin Towers. Durante o dia de amanhã, pela estatística, deverão acontecer pelo menos 87 acidentes, dos quais resultarão pelo menos 112 feridos e pelo menos um morto. Não é decretado luto nacional, não são exigidas cabeças de ministros, não há pronunciamento de comentadores, não há notícias de abertura de telejornais nem pedidos de inquérito

(...)


Xilre, aqui.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

BARRIGA CHEIA

Os especialistas portugueses amam problemas estruturais e adoram fazer comparações com realidades externas, nomeadamente quando têm à mão todo o tipo de números e de estatísticas. Tomemos de exemplo os hábitos de consumo de cultura. Não entendo como pode ser possível falar de hábitos de consumo de cultura sem abordar um problema específico associado ao consumo, seja este de que tipo for. Esse problema é o da tendência portuguesa para fazer do salário mínimo nacional um salário médio. Que esperar dos hábitos de consumo de cultura dos portugueses quando se lhes oferece um salário mínimo de €557? 

Imaginem-se  a terem de pagar casa ou renda, água, gás, electricidade, imaginem-se com um filho para criar, a terem de comprar roupa e sapatos para se apresentarem decentes no trabalho, produtos de higiene básica, medicamentos, dentista, alimentação. Imaginem-se a terem que fazer uma vida básica, normal, decente com €557 por mês. Talvez não seja preciso imaginarem, talvez seja essa a vossa realidade. Que lugar nas vossas prioridades ocupam ou ocupariam livros, cinema, teatro, música, dança, afins? Não seriam relegados rapidamente para o plano dos luxos? E se há coisa que um salário mínimo português nos ensina é que a vida não está para luxos. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

EPIFANIAS #23

23

   Aquilo não é dançar. Desce até àquelas pessoas, jovem rapaz, e mostra-lhes como se dança. Ele esfola-se, sério e ágil, para dançar ante a multidão. Não há música para ele. Começa a dançar lá em baixo no anfiteatro com um lento e flexível movimento dos membros, passando de movimento para movimento, na graça total da juventude e da distância, até parecer um corpo giratório, uma aranha a rodar no meio do espaço, uma estrela. Desejo gritar-lhe palavras de louvor, gritar arrogantemente sobre as cabeças da multidão ‘Vejam! Vejam!’ . . . . . A sua forma de dançar não é como a das rameiras, não é como a dança das filhas de Herodias. Emerge do meio das pessoas, súbita e jovem e masculina, e mergulha de novo na terra em trémulos soluços para morrer triunfalmente.

James Joyce, in Shorter Writings.


Versão de HMBF

QUANDO OS BETOS SÃO O MENOS MAU



O luto terminou, dê-se passagem à caravana circense:
1. repórter da Antena 1 avança em directo para a RTP a notícia da queda de um avião, eventualmente, baseando-se nos testemunhos de uma velhota capaz de ver através de fumo denso, supostamente,
2. jornalista da TVI anuncia um alerta de frio em Portugal com base numa suposta notícia na primeira página de um jornal, supostamente, que, vista mais de perto, era anúncio da próxima temporada de uma série fantástica, alegadamente,
3. as redes sociais andam excitadíssimas com uma bombeira de Pampilhosa da Serra, a qual teve o azar de juntar à fotogenia a prática de uma nobre actividade, possivelmente,
4. Marcelo quer mais leis, Judite quer demissões, o padre Júlio quer mais padres…

As consequências de andar a chafurdar diariamente neste lamaçal noticioso são imprevisíveis, sendo certo, contudo, que o melhor que podemos esperar de uma sociedade assim fica plasmado no discurso da betinha que teve acesso às matérias de um exame de português, por via de uma cunha junto dos comunas do sindicato dos professores. Vai sair “Alberto Cairo”. Se não sair, eu não tive nada “a ver” com isto.

MAÇÃ, MELANCIA

A partir de Tsai Ming-liang

A última vez que me senti amado tinha escrito na testa: vou abandonar-te.
A minha cabeça assumia a forma de uma maçã, o cérebro eram minhocas.
O cérebro eram larvas sôfregas, eu andava como uma maçã a ser devorada, caída da árvore da sabedoria, maçã envenenada de paixão.
Tinha uma placa pendurada ao pescoço, era um judeu num campo de concentração, a última vez que me senti amado foi quando disse: adeus.
Ninguém me amou realmente, ninguém que enclausure saberá verdadeiramente amar, e eu tinha sirenes de sinalização a gritarem: deixem-me passar, deixem-me passar.
Ia a caminho das urgências, fui impedido, não me tratei. Agora sinto-me doente, há muito que me sinto doente, desde esse dia que me sinto doente de fadiga, um cansaço tão pesado como a perspectiva de ir trabalhar enquanto se toma o café da manhã. 
A minha cabeça agora é uma melancia, só água e pevides. Tenho a cabeça feita em água em pevides. Fosse possível, comeria a minha própria cabeça.  

terça-feira, 20 de junho de 2017

A PERGUNTA

Por que é que nunca se ouve falar de incêndios no Inverno?


Adenda: um Micróbio de 2005: aqui.

TRISTE CONCLUSÃO



(...)
De um lado o poder, do outro o saber. Afastados por milhões de hectares queimados, centenas de vítimas e milhões de euros consumidos. Quase incomunicáveis, apesar da cordialidade. Com o poder a mostrar quão insensível é aos apelos do conhecimento.
(…)
Há um problema de fundo com a prevenção. Ela impede os negócios do combate, um pasto fértil que se renova ano após ano. Numa lógica neoliberal o Estado deve ceder o passo aos negócios, ao Mercado, e deve reservar-se  meras funções de coordenação e de regulação. Para que tudo funcione bem deve abster-se de adoptar políticas intervencionistas deixando às empresas a intervenção reparadora e disponibilizando os fundos públicos - pagos com o dinheiro dos contribuintes - de que elas se alimentam. 
Quando o Mercado entender que retirará mais benefício da prevenção do que do combate, a politica pública mudará e o cluster dos incêndios mudará de orientação mantendo no essencial os mesmos protagonistas.

(…)


Que a citação não iniba a leitura integral do texto, assim como de outros acerca do mesmo assunto: aqui. O sublinhado é meu. A imagem é do Pedro Vieira. Excelente, como sempre.

#98


   Não é a primeira vez que Dan Auerbach se aventura a solo. Já em 2009 havia feito uma pausa dos The Black Keys, publicando então o álbum Keep It Hid. O merecido sucesso de El Camino (2011), muito por culpa de uma canção orelhuda intitulada Lonely Boy, gerou espectativas que o álbum seguinte da banda dividida com Patrick Carney não gorou. 
   Os temas a solo enveredam por texturas menos arreigadas ao rock, mesmo quando, ao contrário do que por vezes parece, o rock dos The Black Keys se desvia da tradição e adopta ritmos e nuances melódicas próximas tanto da pop como da soul. Waiting on a Song (2017) é uma belíssima recolha de composições pautadas por uma saudável atitude retro, recuperando métodos de produção que o levaram a rodear-se de músicos experimentadíssimos. 
   Impressiona, logo à partida, a paleta de géneros, com tons provenientes tanto da country music como da folk rock, passando por essa coisa desconforme a que se deu o nome de R&B, com arranjos sofisticados lembrando, a espaços, alguma da melhor soul music produzida na década de 1970. Em termos comparativos, talvez desde o Beck de Odelay (1996) que não ouvia um álbum tão ecuménico (Cherrybomb é o tema que há muito falta a Beck). 
 Mas impressiona também, apesar das inúmeras evocações, a capacidade de Dan Auerbach oferecer ao todo uma coerência que não se reduz apenas às suas particularidades vocais. A boa disposição exibida na maioria dos temas é uma resposta inteligente ao ar dos tempos, sobretudo quando pisca um olho irónico ao mestre nobelizado na mais groovy das canções deste ano: «Guess I'll stay on desolation row / Go get stoned and hang around». 
   É ouvi-lo:



UMA ROSA DE PAUL CELAN


QUIMICAMENTE

Silêncio, fundido como ouro, em
mãos
carbonizadas.

Grande, cinzenta,
forma-irmã
próxima como tudo o que se perdeu:

Todos os nomes, todos aqueles
nomes queimados
juntamente. Tanta
cinza por abençoar. Tanta
terra ganha
sobre
os leves, tão leves
anéis
da alma.

Grande. Cinzenta. Sem
escórias.

Tu, outrora.
Tu com a flor
pálida, mordida.
Tu na torrente de vinho.

(Não é verdade que também a nós
nos despediu este relógio?
Bom,
bom, como a tua palavra passando por aqui morreu.)

Silêncio, fundido como ouro, em
mãos carbonizadas,
carbonizadas.
Dedos, finos como fumo. Como coroas, coroas de ar
ao redor — —

Grande. Cinzenta. Sem
rasto.
Ré-
gia.


Paul Celan (n. 23 de Novembro de 1920, Czernowitz, Bucovina, Roménia - m. 20 de Abril de 1970, Paris), in Sete Rosas Mais Tarde, selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Edições Cotovia. 2.ª edição, Abril de 1996,  pp. 107-109.

DRONES

Sucedem-se as notícias de aviões sujeitos a manobras para evitar colisões com drones. Dispensam-se consultas ao professor Bambo para se adivinhar que, a breve trecho, os incidentes ascenderão à categoria de acidentes. Depois as televisões farão directos, os jornais dedicar-se-ão a emitir opiniões, o povo chorará as suas vítimas inocentes. Puta que pariu a merda dos drones. Não há quem meta açaimes nesses bichos? Não há quem responsabilize os "dronos"? 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A CULPA


…a culpa, a culpa, de quem é a culpa, eu quero culpados, exijo culpados, exijo para os culpados a mesma pena das vítimas, quero novas vítimas, quem fez, quem foi, quem não fez, o quê, quem, como, quando, eu sei, eu sabia, eu já tinha dito, eu previ, não me quiseram dar ouvidos, agora olha, aí têm, casa roubada trancas na porta, floresta queimada, lixo no chão, lixo, lixo, lixo, opinião pública, a culpa, o ordenamento, opinião pública, andaram a construir à parva, não há ordenamento do território, a nossa floresta é um caos, medidas, queremos medidas, queremos leis, mais leis, decretos, queremos sobretudo muita burocracia, muitas leis que ninguém cumprirá, tenho pinhais lá para a terra dos meus pais que nem sei onde ficam, nem sei o que tenho, tenho coisas, se calhar queimadas, se calhar as coisas arderam, se calhar não tenho nada, os bombeiros, eu sabia, quando é para festas, onde andam os bombeiros, os aviões, onde anda a protecção civil, a ministra é uma incompetente, isto é tudo negócio, as madeiras, os aviões, às vezes até são os bombeiros que põem os fogos, a ministra não sabe prevenir incêndios nem trovoadas secas nem fúrias, o primeiro-ministro nem sequer foi eleito primeiro-ministro, o presidente da república é só abraços, e que tudo foi feito, bem feito, perguntem aos mortos, culpados, se calhar, se tivessem ficado nos rios, dentro de água, como aquela família num tanque, se não se tivessem metido à estrada, a culpa foi da GNR, a GNR é que os atirou para a estrada da morte, que inferno, este inferno, ai jesus, meu deus, que inferno, a culpa é do tempo, a culpa é das condições adversas, sim, das condições adversas, esta adversidade de sermos como somos, desleixados, desinteressados, esquecidos, depois de amanhã já ninguém se lembrará do ordenamento, da paisagem, que bela paisagem, deixa-me tirar uma fotografia para partilhar no Instagram, ai ter aqui uma casa, ai, não se pode construir, a gente constrói e paga a multa, agora não posso mexer naquilo que é meu, lá para a terra dos meus pais, eu sei lá as coisas que eles para lá tinham, são eles os culpados, os culpados são os outros, a culpa é dos outros, dos outros, dos outros, a culpa…

EPIFANIAS #22

22

                                                 [Dublin: na Biblioteca Nacional]
Skeffington — Fiquei triste ao ouvir da morte do
         seu irmão. . . .lamento não o termos
         sabido a tempo. . . . .de irmos ao
         funeral. . . . .
Joyce — Ó, ele era muito novo. . . .um rapaz. . . .
Skeffington — Ainda assim. . . . .dói. . . .

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

PERDI UM LEITOR


São muitas as pessoas com as quais nos vamos cruzando ao longo da vida, mas poucas as que nos marcam por razões tantas vezes incompreensíveis. Nem elas nem nós saberemos dessas marcas, por serem como que invisíveis e imperscrutáveis. Tantas são as pessoas com quem nos cruzamos ao longo da vida, pessoas anónimas, pessoas de quem não sabemos mais do que um nome, quando sabemos, uma característica, quando as têm especiais, peculiares. Damos por elas quando nos faltam, quando desaparecem do nosso alcance, quando deixamos de as ver. Perguntamo-nos que será feito desta pessoa, deste homem, daquela mulher, que tantas vezes apareciam e deixaram de se ver? Questionamo-nos por que terão desaparecido, por onde andarão, estarão doentes, terão emigrado, zangaram-se com o nosso perfil?
Hoje, ao folhear um jornal local, dei com uma dessas pessoas. Não conheci este homem senão naquela formalidade do trabalho que obriga a distâncias relativas. Lembro-me dele desde um dos meus primeiros dias de trabalho numa livraria, por me ter encomendado um livro do Bruce Chatwin e assim ter ajudado o fustigado livreiro a ganhar o dia. Com o passar dos meses, dos anos, lá ia aparecendo de quando em vez, metendo conversa sobre colecções como A Biblioteca de Babel, da Editorial Presença, ou a Miniatura, da Livros do Brasil, a que dedicava atenção de coleccionador. Sugeri-lhe imensos livros, alguns deles objecto de uma troca de impressões que me parecia sempre benfazeja. Muito discreto, consegui ficar a saber-lhe de um weblog de culto, uma espécie de arquivo, como o próprio escreveu, «em homenagem à minha própria vida de leitor». Mil e Um Livros, aqui. A determinada altura, foi uma honra sabê-lo seguidor da Antologia do Esquecimento. Ainda é, presumo que continue a ser. Pelo menos enquanto a memória da sua passagem perdurar por aqui. Reencontrei-o hoje na página de um jornal, a página onde se coleccionam rostos, passagens, partidas. 

Perdi um leitor. Não de palavras inúteis como estas, mas um leitor a quem sugerir livros, bons livros, aqueles livros de que gostamos e sugerimos na esperança de que alguém possa encontrar neles o que nós vislumbrámos. Foi um desses leitores que eu perdi.

EPIFANIAS #21

21

Duas carpideiras empurram-se através da multidão. A rapariga, com uma mão a puxar a saia da mulher, corre à frente. Tem a cara de um peixe, sem cor e de olhar oblíquo; a mulher tem um rosto pequeno e anguloso, o rosto de um vendedor. A rapariga, com a boca distorcida, olha para a mulher tentando perceber se é o momento certo para chorar; a mulher, ajustando um gorro liso, apressa-se em direcção à capela mortuária.

James Joyce, in Shorter Writings.


Versão de HMBF.

PAISAGEM

domingo, 18 de junho de 2017

PESO

Um peso, toneladas de peso sobre as costas, um fardo mulher, um fardo homem.
Querias ter braços para deslocar o peso dos ombros, faltam-te braços, falta-te músculo.
O peso pesa cada vez mais, enterra-te.
Não sabes, não entendes, não percebes por que razão o peso cresce, por que motivo cresce sobre os teus ombros, curvando-te as costas. Ficas marreco.
Marreco de amor, és um fardo. Liberta os outros de ti.

És um peso.

BANDA SONORA ESSENCIAL #10


   O gosto pela música brasileira há-de ter vindo dos discos que rodavam lá por casa, de Roberto Carlos a Rita Lee, de Djavan a Ney Matogrosso, muito provavelmente por culpa de bandas sonoras para telenovelas e afins. Já na adolescência, trouxeram-me às mãos, porém, um álbum intitulado Meus Caros Amigos (1976). Chico Buarque acabou por ser a porta aberta para uma outra música brasileira, a que me transportaria posteriormente às obras de Tom Jobim e João Gilberto.
   Retrato em Preto e Branco (2005) recupera, em edição de luxo, as primeiras gravações do autor de A Banda, sobretudo aquelas que serviram para afirmar Chico Buarque como compositor, poeta e intérprete. Estamos a falar de temas vindos a lume na década de 1960, singles como Pedro Pedreiro. São canções para festivais, quando os festivais eram um veículo de divulgação imprescindível, sambas encomendados para musicais, temas que virão a ser popularizados nas vozes de Caetano ou Gilberto Gil. É a bossa nova de Com açúcar, com afeto a tomar forma com letras eivadas de preocupações sociais, incursões por ritmos latinos como o bolero (escute-se Funeral de um lavrador) sem abrir mão do samba.
  A música de Chico Buarque tem um humor pacificador, uma espécie de alegria descontente, isto é, uma festividade que é em si mesma forma de resistência aos dissabores da vida. Nos momentos mais melancólicos, como em Carolina, o ritmo bossa embala-nos dos olhos tristes da protagonista para um espaço de contentamento. A mensagem é positiva, apesar de Carolina não ter dado por ela. Damos nós. Ouvir Chico ajuda-nos a guardar a dor. Em dias de tristeza induzida pela realidade pouco nos restará além deste consolo. O intérprete sorri ao pronunciar as palavras, embalado pelos ritmos que lhe dão um colorido tropical: samba, chorinho, bolero, bossa nova. 
  Tomemos de exemplo a nostalgia convocada no tema que oferece título à colectânea, como poderíamos fazer com Umas e outras ou Benvinda. São canções onde o abandono e a tristeza se resolvem com uma noção simples da tolice que é entregar à melancolia o precioso tempo de uma vida. A melancolia só servirá para coleccionar sonetos. Não estará também a poesia no caminhar, na paz e no conforto da lira que distrai?



EPIFANIAS #20

20

   Estão todos a dormir. Vou subir agora . . . . . Ele está deitado na minha cama, onde ontem à noite descansei: cobriram-no com um lençol a fecharam-lhe os olhos com moedas. . . . Pobre companheirinho! Rimos juntos amiúde – ele furou o seu corpo muito levianamente. . . . Lamento muito que tenha morrido. Não posso rezar por ele como os outros rezam . . . . . . Pobre companheirinho! Tudo o mais é tão incerto!



James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

LUTO EM CHAMAS


1. Acordar assim, com a cabeça redemoinhando imagens e notícias. Um parque de merendas coberto de lixo, entulho espalhado pelas matas, matagais que são acendalhas a céu aberto. Trovoada, calor, vento, a tempestade perfeita. A mãe Natureza reivindicará o atentado, o nosso desleixo será seu cúmplice. 



2. Demorou quatro linhas até que o número aumentasse de 39 para 43. Contam-se os mortos. 

3. Os portugueses das caixas de comentários eximem-se de responsabilidades insultando a ministra da Administração Interna. Chamam-lhe incompetente. Os portugueses das caixas de comentários são gente perfeita, inteligente, competente, são nobre povo. Dizem que este é um governo de assassinos. Exigem cabeças sem demoras, querem culpados, pretendem o gozo público da expiação. Estes portugueses medievos também passeiam em dias de folga, não largam lixo apenas nas caixas de comentários. Ontem, num simples passeio pelo Bacalhôa Buddha Eden, deu para perceber o civismo das nossas gentes no lixo que se ia encontrando abandonado pelas bermas. 




4. Na televisão contam-se 57 mortos e 59 feridos. O cenário é difícil de imaginar. A origem criminosa está afastada, pelo que não vale a pena especular sobre negócio das madeiras, pirómanos e outros maníacos que a raiva e a fúria dos incautos gostava de atirar às chamas. 

5. O tema dos próximos dias será o ordenamento florestal. De quando em vez, estes temas vêm à baila. Depois ficam na penumbra. Temos neste momento 57 razões para dar definitivamente mais voz a quem se preocupa com estas matérias. 


6. A contagem continua. Não tenho memória de uma tragédia destas no meu país. A ideia dos corpos carbonizados, presos entre chamas, confere-lhe um horror impronunciável. Leio no Jardim de Luz: «É tão frágil o que nos sustém».

sábado, 17 de junho de 2017

TEIA SOCIAL

Para o R.A.


Há quem passe a vida feliz, ou passe pela vida com um sorriso. Pelo menos é o que transparece. Diariamente, reiteradamente, repetidamente, a monotonia do sorriso, da alegria, da felicidade. Uma fotografia num restaurante, feliz. Uma fotografia numa rua, feliz. Uma fotografia numa praia, feliz. As redes sociais estão repletas de pessoas felizes, continuamente felizes. Ninguém estranha, ninguém se questiona sobre a repetitiva felicidade desta gente. Mas se por um momento mostrares infelicidade, tristeza, melancolia, toda a gente estranhará. Se em vez da fotografia feliz partilhares um pensamento infeliz, um sentimento melancólico, uma emoção triste, toda a gente estranhará. As pessoas estranham a comunhão da tristeza, convivem mal com a partilha da tristeza, mas aceitam sem questionar a alegria repetitiva, monótona, constante, enfadonha, fastidiosa como se fosse natural, como se fosse verdadeira, como se fosse autêntica. Como se a felicidade não merecesse ser questionada. 

EPIFANIAS #19

19

                                         [Dublin: na casa de
                                         Glengariff Parade: tarde]
Mrs Joyce — (enrubescida, tremendo, surge à
        porta da sala de estar)… Jim!
Joyce — (ao piano)… Sim?
Mrs Joyce — Percebe alguma coisa do
       corpo? … Que deverei fazer? … Está
       qualquer coisa a sair do
       buraco no estômago do pequeno George…
       Alguma vez ouviu algo sobre isto?
Joyce — (surpreso)… Não sei….
Mrs Joyce — Deverei mandá-lo ao médico? O que
       pensa?
Joyce — Não sei…… Que buraco?
Mrs Joyce — (impaciente)… O buraco que todos temos
       ….. aqui (aponta).
Joyce – (levanta-se)

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

NOVELA DE XADREZ

A história de Stefan Zweig (n. 1881 – m. 1942) é conhecida, embora nunca seja pleonástico relembrar alguns pormenores que acabaram por condicionar a obra publicada. Nascido no seio de uma abastada família vienense de origem judaica, estudou nas melhores escolas. Os primeiros poemas apareceram publicados quando tinha apenas dezasseis anos de idade. Estudou Filosofia e Ciências Literárias, tendo vindo a afirmar-se como um dos maiores intelectuais do seu tempo. A vastíssima obra inclui poesia, contos, teatro, ensaios, biografias, praticamente todos os géneros que possamos imaginar. O interesse pelos autores modernos levou-o à tradução de Baudelaire e a monografias sobre Verlaine e Rimbaud, demarcando-se assim de formas literárias mais tradicionais. Apesar de ter viajado muito, mantendo uma intensa actividade criativa no decorrer das digressões, será em 1933, na sequência das fogueiras nazis onde os seus livros serão desfeitos em cinza, que resolverá abandonar definitivamente a Viena Natal, deslocando-se de França até Itália e fixando-se, posteriormente, em Inglaterra. Viagens ao Brasil e a Portugal levaram-no a interessar-se pela figura de Fernão de Magalhães, a quem dedicará uma das suas famosas obras biográficas. Em 1940 adquiriu cidadania britânica, mas no ano seguinte exilou-se no Brasil. No dia 22 de Fevereiro de 1942 acabou por se suicidar, deixando para a posteridade uma declaração de despedida onde agradece a hospitalidade brasileira. Não obstante, a depressão, a saturação e a desesperança levaram a melhor: «Depois dos meus sessenta anos seriam necessárias forças especiais para começar novamente tudo de novo». 
Sobre esta Novela de Xadrez (Livros do Brasil/Porto Editora, Março de 2017) recai a curiosidade de haver sido um dos seus escritos derradeiros, pressentindo-se nas personagens algumas das características que terão levado ao colapso de Zweig. Trata-se de uma pequena novela (cerca de 70 páginas nesta edição de bolso da muito recomendável Colecção Miniatura), aqui enriquecida por um prefácio de Álvaro Gonçalves e por uma cronologia biográfica. Narrada na primeira pessoa, Novela de Xadrez relata o inesperado encontro, numa viagem de navio entre Nova Iorque e Buenos Aires, com escala no Rio de Janeiro, entre um campeão mundial de xadrez e uma misteriosa criatura. A determinada altura, o narrador desloca o protagonismo para um monólogo desta estranha criatura. Temos, deste modo, dois narradores no interior de uma mesma narrativa, como teremos dois adversários à volta de um tabuleiro de xadrez. 
O primeiro, de origens muito humildes, provém da Eslávia do Sul (antiga Jugoslávia) e tornou-se campeão de xadrez acidentalmente. Passivo, lento, algo imbecil e fleumático, pouco inteligente, descobre, porém, um talento inigualável e inato para o xadrez. Esta descoberta torná-lo-á um rapaz-prodígio, daquelas personalidades em quem a natureza parece comandar todo o destino e o instinto todas as acções. Completamente diferente, a estranha criatura que se irá opor a este campeão é um indivíduo absolutamente cerebral. Saberemos da voz do próprio a sua história, enquanto a relata ao narrador que nos guia pelas particularidades de um jogo capaz de produzir as estrelas mais singulares. Capturado pelos nazis, experienciou a pior das torturas: «Não nos faziam nada – éramos colocados simplesmente no mais absoluto nada, pois, como se sabe, não há nada no mundo que produza uma semelhante pressão sobre a psique humana como o próprio nada» (p. 64). Esta pressão do nada, o vazio , a espera e a solidão, esta rotina do nada absoluto, a «maldosa tortura desta solidão», ele conseguirá superar decorando as jogadas de xadrez fixadas num livro que lhe virá parar às mãos. Do nada absoluto à obsessão total, a mente da estranha criatura transportá-la-á para o limiar da loucura, para uma «intoxicação de xadrez» alienante, doentia. 
O interesse desta partida está mais nas características dos adversários do que no jogo em si. Stefan Zweig coloca frente a frente, com o tabuleiro axadrezado da vida a separá-los, o talento inato e a obsessão intelectual, ambas características que facilmente reconhecemos na sua biografia. O nervosismo, a impaciência, a saturação pontuam as jogadas. Cada um destes jogadores pode ser interpretado como o “eu-brancas” e o “eu-pretas” de um mesmo intelecto, num desgastante desafio disputado no interior da alma de um homem. Profundamente psicológica, esta novela reflecte também uma leitura da Europa então destroçada por uma estapafúrdica doutrina política incapaz de entender como num mesmo ser humano se articulam de um modo conflituoso o inato e o adquirido. A maior derrota será ter de conviver com quem não o entenda, com quem se convença de uma natureza maquinal do ser. Independentemente da sua previsibilidade, o ser de um homem será invariavelmente tão fruto dos acasos e dos acidentes como da herança que carrega no sangue sem que o determine. Poucos meses antes de se ter suicidado, Stefan Zweig escreveu esta Schachnovelle e iniciou um estudo sobre Montaigne. E foi algures no meio destes dois projectos que terminou a sua autobiografia, literária e literalmente. 

AS PERGUNTAS #1

*

— Passa-se tanta coisa nesta cidade que nós não conhecemos.
— Sentes falta?

*

— Às vezes pergunto-me: por que aguento eu isto? Por que me sujeito?
— E o que respondes?

*


sexta-feira, 16 de junho de 2017

EPIFANIAS #18

18

                                    [Dublin, na North Circular
                                    Road: Natal]
Miss O’Callaghan — (cicia) — Disse-te o título,
        The Escaped Nun.
Dick Sheehy — (alto) — Ó, Jamais leria
        um livro desses… Tenho de
        questionar Joyce. Joyce, alguma
        vez leu The Escaped
        Nun?
Joyce — Reparo que certo
        fenómeno acontece por
        esta hora.
Dick Sheehy — Qual fenómeno?
Joyce — Ó… as estrelas aparecem.
Dick Sheehy (para Miss O’Callaghan) Alguma
        vez reparou como… as
        estrelas aparecem na ponta
        do nariz de Joyce por esta
        hora?... (ela sorri). . Porque
        eu reparo nesse fenómeno.


James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

UM POEMA DE TOMAS TRANSTRÖMER


PANFLETO

A fúria silenciosa garatuja no lado interior das paredes.
Árvores de fruto em flor, o cuco canta.
É a anestesia primaveril. Mas a fúria silenciosa
pinta slogans na garagem do fim para o princípio.

Vemos tudo e nada, bem direitos como periscópios
manobrados pela tímida tripulação dos infernos.
É a guerra dos minutos. O sol abrasador
cai sobre o hospital, silo de estacionamento da dor.

Nós, pregos vivos pregados na sociedade!
Um dia libertar-nos-emos de tudo.
Sentiremos a aragem da morte nas nossas asas
e seremos mais condescendentes e mais selvagens do que até aqui.


Tomas Transtömer (n. 15 de Abril de 1931, Estocolmo, Suécia - m. 26 de Março de 2015, idem), in 50 Poemas, tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água, Julho de 2012,  p. 103.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

DOIS POETAS DE ESPANHA

Tem tradição entre nós o interesse pela poesia vinda de Espanha, patenteado desde há muito tanto no incansável trabalho de divulgação levado a cabo por José Bento (n. 1932) como nas traduções de Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945). Pequenas editoras como a Averno, a extinta Ovni, a Língua Morta, a Douda Correria, a Medula e a do lado esquerdo, para citar umas poucas entre outras que por certo estarei a esquecer, deram e vão dando continuidade, conforme os casos e na medida das suas possibilidades, a esse esforço de publicação de poetas herdeiros da língua de Cervantes. Dois livros recentes são exemplo desse mesmo esforço, assim como de uma pluralidade que mantém viva a poesia produzida por nuestros hermanos.  
Comecemos por Carne de Leviatã (Douda Correria, Junho de 2016), de Chus Pato (n. 1955), poeta galega estreada em 1991 com um livro intitulado Urania. Uma nota final informa-nos de que a obra traduzida por João Paulo Esteves da Silva encerra a pentalogia Decrúa, iniciada com a publicação de m-Tala (2000) e continuada com os livros Charenton (2004), Hordas de escritura (2008) e Secesión (2009). É igualmente da autora um apontamento explicativo do título Carne de Leviatã, o qual foi respigado em Giorgio Agamben numa passagem onde se alude à tradição judaica. Leviatã é um dos três animais da origem que servirá de banquete aos justos nos dias do Messias. A poesia de Chus Pato tinge-se de inúmeras alusões congéneres, provenientes tanto da mitologia greco-romana como da tradição judaico-cristã. 
Transgredindo as convenções do lirismo focado no sujeito, assume uma tendência reflexiva que aproxima amiúde o discurso poético do pensamento filosófico. Neste contexto, o problema da linguagem, da relação entre as palavras e os corpos nomeados, é uma das temáticas mais em evidência, ainda que reflectindo simbolicamente, por meio de uma linguagem que privilegia o sentido metafórico das palavras, certa dimensão ética de que o poema não abdica. Sirva de exemplo esta 

Clareza de Juízo

Entendo que a vida é o que vivemos: esta a tua a
   minha a nossa vida
entendo que um poema é pobreza comparado com a vida
entendo que é pausa
que por um instante separa a vida de si
que pesa e faz balanço
aguça os sentidos
Entendo que é acesso ao intelecto
um vértice corpóreo
impróprio
Assim o entendo
que o poema indica a desconexão entre melodia e
   sentido
Entendo que um poema só se escreve com versos finais

Desfunda o idioma
desfunda a vida

Esta ideia de poema enquanto acesso ao intelecto é o que mais sobressai na poesia de Chus Pato, jogando aqui com alegorias, acolá com símbolos, por vezes aforística, outras vezes elíptica, no encalço de um idioma capaz de traduzir a intensidade dos ritmos que pautam o andamento do mundo. À imaterialidade da linguagem, a poesia responde com a ambiguidade do verso: «escrevo a voz como um país estrangeiro». É este o seu poder alquímico, o seu assombro, a sua estimulante e desafiante proposta.
Bem diferente é a poética de Jesús Jiménez Domínguez (n. 1970), natural de Saragoça. Ensinar o eco a falar (do lado esquerdo, Abril de 2017) é uma antologia com poemas provenientes de três livros do autor: Fundido en Negro (2007), Frecuencias (2012) e Contra las cosas redondas (2016). A confiar na informação disponibilizada online, pois, infelizmente, nenhuma nota explicativa acompanha esta edição, ficou de fora o poemário de estreia Diario de la anemia / Fermentaciones (2000). 
Inscrita nas tendências dominantes do seu tempo, poder-se-ia dizer desta poesia o mesmo que se diz de tanta outra arreigada aos pormenores do quotidiano. Nos primeiros poemas sobressai o tom elegíaco proveniente de uma paisagem urbana com bares e cemitérios em pano de fundo. A solidão, a melancolia, o tédio, são constantes que atravessam poemas devedores de uma narratividade que o poema de Billy Collins incluído no segundo conjunto bem sintetiza em cinco singelos versos da segunda estrofe: «Sirvo-me dos detalhes mais simples / — um cão adormecido no chão, / um pássaro que escapa por uma janela — / para me revoltar contra a tradição literária / mais grandiloquente» (p. 27). Não enjeitamos, porém, a possibilidade de no futuro ser esta a tradição contra a qual alguém escreverá, por antever no prosaísmo discursivo, eivado aqui e acolá de referências multiculturais e de uma ligeira ironia, a pose repetida do flâneur baudelairiano: «A cidade por onde caminhamos é um sapato demasiado apertado» (p. 13). 
O existencialismo previsível que matiza grande parte destes poemas resulta em cenas quotidianas e rotineiras, descontinuadas apenas pela capacidade que o poeta demonstra em, a espaços, arriscar olhar para o mundo sem por ele ser absorvido. É o caso do poema que deu título ao último dos livros contemplados nesta breve antologia traduzida por Maria Sousa:

CONTRA AS COISAS REDONDAS

Amamos as coisas redondas e pensamos
que vão ser eternas [e] amáveis e perfeitas:
a toranja debaixo do rotundo sol de agosto,
a pulseira que orbita em volta do pulso,
a moeda com duas caras e nenhuma cruz,
a bola de praia em cujo interior ainda se respira
um ar paciente [de] mil novecentos e oitenta e dois.

Há dias redondos em que tudo se encaixa
e a vida parece andar sobre rodas:
alguém, de lixa na mão, encarregou-se
de subtrair ao mundo todas as esquinas,
todas as arestas, todas as bordas.

Mas basta que atravesses um declive
ou que tudo se volte, de repente, para cima,
para verificar que são as coisas redondas
as primeiras a sair e a começar a correr:
a toranja, a pulseira, a moeda e a bola.

Eu recuso-me redondamente a aceitar tais desplantes.
Às formas esféricas eu oponho as coisas informes.
Escolho as imperfeitas, as imprecisas, as irregulares.
Aquelas cheias de defeitos, amolgadelas ou dobras.
Bonitas e originais, sem se sujeitarem a nenhum centro,
só elas permanecem e nos acompanham sempre.



Nota: tomei a liberdade de corrigir, entre parêntesis rectos, o que me parecem ter sido lapsos na transcrição portuguesa do poema, os quais são mais frequentes ao longo do livro do que seria desejável. Tratando-se de uma edição bilingue, poderá o leitor confrontar ambas as versões.


Adenda: Alertaram-me por e-mail e na caixa de comentários para um facto que importa aqui sublinhar, sem prejuízo do que acima se refere. A poeta Chus Pato escreve em galego, pelo que não está correcto dizer-se que escreva na língua de Cervantes. Ainda assim, a despeito das particularidades que caracterizam o território de Espanha, não me parece incorrecto dizer-se que é uma poeta de Espanha, admitindo que seja mais correcto dizer-se que é uma poeta galega. 

quarta-feira, 14 de junho de 2017

EPIFANIAS #17

17

                              [Dublin: na casa dos Sheehy, Belvedere
                              Place]

Hanna Sheehy — Ó, por certo haverá grandes multidões.
Skeffington — Na verdade, como diria o nosso amigo
         Jocax, será o dia da 
         rebelião.
Maggie Sheehy — (declara) — Agora mesmo a
         rebelião pode estar parada
         à porta!

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

EM RESUMO

O Bruno Vieira Amaral pode levar com cinco estrelas, o António Guerreiro pode cascar “no” J. Rentes de Carvalho, a Isabel Lucas e a Clara Ferreira Alves podem andar pela América, cada qual à sua maneira, o Gonçalo M. Tavares pode ter livro novo sobre livro novo, o Manuel Alegre pode ganhar o Camões, o João Pedro George pode escrever sobre terramotos, mamas e a Marquesa de Paiva, o poeta mais rico de Portugal pode ser o Manuel Alegre, os livrecos do Henrique Raposo podem não pegar fogo, como o original de São Cipriano, a poesia pode andar por 300 editores que não conseguem dar vazão a 30000 poetas com 30 leitores cada, o António Lobo Antunes pode ter muitos segredos escondidos sobre o Dinis Machado, o Dinis Machado está-se nas tintas, já foi, a família do Dinis Machado pode dizer o que diz Molero do Lobo Antunes, a rapariga do comboio pode ter estado na feira do livro de Lisboa, a feira do livro de Lisboa pode ter estado no parque, o parque é lindo de morrer. Feitas as contas, tudo se resume a isto: Afonso Noite-Luar faz esquecer Raul Minh’alma que, por sua vez, havia destronado Pedro Chagas Freitas. 

Notícia de última hora: Margarida Rebelo Pinto foi vista na Claire’s a comprar uma mascarilha. É muito provável que o seu próximo livro seja um romance histórico acerca das fantasias eróticas de Soror Mariana Alcoforado. 

COPIADO DE JAMES JOYCE

Primeiro poema para o fim do mundo:

quando acabares de comer
lava os dentes
lava a louça
lava as mãos
lava lava
lava lava
larva
lava

.

DA LIVRARIA PARA O CONVENTO ;-)

Duas adolescentes discutiam se seria saudável fazerem tatuagens onde haviam realizado implantes. Uma delas tinha o Memorial do Convento na mão. 

FAMÍLIA DE SILICONE

Talvez os leitores deste weblog não estejam a par, mas eu explico. Sempre que vou ao banco, passo pela banca dos jornais e espreito as capas das revistas. Há uma rapariga chamada Luciana Abreu que aparece muito. Tem um aspecto vulgar, nada digno de nota. Lembro-me dela quando era Floribella, por causa da minha mais velha. Depois retocou as mamas, substituiu a indumentária primaveril por qualquer coisa que fizesse sobressair as mamas retocadas, calçou saltos altos para parecer ter uma estatura que não tem, arranjou-se com um falhado moço da bola, de quem entretanto se separou, e teve filhas a quem deu os estranhos nomes de Lyonce e Lyanni. As chamadas de capa com Luciana estão quase invariavelmente relacionadas com conflitos familiares, nomeadamente com a mãe e com uma irmã. Desconheço os pormenores, mas entristecem-me os títulos, as gordas, os sublinhados. Tenho da família um conceito algo conservador, acho que é o último reduto da privacidade. Vê-la tornada pública no seu lado mais pobre é assaz deprimente. Esta gente podia simplesmente calar-se, mas talvez não lhes convenha o silêncio. O ruído transforma-lhes as vidas numa novela, pelo que talvez se alimentem de serem o maná de revistas fúteis e seus respectivos leitores. Quando olho para estas capas não me julgo melhor nem pior que o conteúdo nelas exposto. Não teço juízos morais, apenas estéticos e, muito de vez em quando, éticos. Mas pergunto-me, interrogo-mo, como será viver uma vida assim de silicone. E não há mamas que me esclareçam.