segunda-feira, 23 de outubro de 2017

INVISÍVEIS


   Em Novembro de 2012, um incêndio queimou vivos cento e dez operários no Bangladesh. Trabalhavam nas chamadas sweatshops, oficinas de suor, sem nenhuma segurança nem nenhum direito.
   Pouco depois, em Abril do ano seguinte, outro incêndio queimou vivos mil cento e vinte e sete operários noutras sweatshops do Bangladesh.
   Eram todos invisíveis, como continuam a ser invisíveis os escravos de muitos outros lugares do mundo globalizado.
   Os seus salários, um dólar por dia, também são invisíveis.
   Bem visíveis são, em contrapartida, os preços impagáveis das roupas que as suas mãos produzem para os Walmart, JCPenney, Sears, Gap, Benetton, H&M...


Eduardo Galeano, in O Caçador de Histórias, trad. José Colaço Barreiros, Antígona, Setembro de 2017, p. 79.

DIA 26, EM LISBOA


DOIS FRAGMENTOS DE PER AAGE BRANDT


*

a lua não é um ser vivo, é
uma lua entre muitas outras, e embora
a chamemos pelo seu nome e como testemunha
de coisas que nós decerto fizemos repentinamente e temos
vindo a fazer, e o que está feito feito está, e as coisas aconteceram, e
o que ela viu e tem visto, com o seu grande olho amarelo e selvagem
visto está, mesmo que uma nuvem tenha acaso passado
diante do seu olhar no instante decisivo em que uma coisa
se tornou tão eternamente eterna, que ainda agora é eterna,
embora disso, infelizmente, ela não tenha muita consciência,
tal como nós, as nuvens navegam selvagens e negras
perante os nossos instantes que a lua conhece 
                                                                  (astro-blues)

*

o homem é um hóspede efémero da terra,
pensava o poeta asteca, mas um hóspede
nem sempre é um homem aqui na terra;
na rua, numa país estrangeiro, na cama de alguém,
acontecem coisas estranhas, um coração é uma
arma eficaz, e (citação) de qualquer modo morreremos,
abandonando-nos uns aos outros, abraçados, com a língua na
orelha
de um corpo que vibra de prazer ou se alonga num grito de
guernica,
depois do encontro com alguém que passou
e desapareceu ou tomou a decisão de ficar

*


Per Aage Brandt (n. 26 de Abril de 1944, Buenos Aires - de nacionalidade dinamarquesa), in Livro da Noite, tradução colectiva (Mateus, Junho de 2002), revista e apresentada por Maria João Reynaud, Quetzal Editores, Março de 2004, pp. 30-31.

O QUE É ISTO?


O HOMEM DO MACHADO

   O Homem do Machado anda desaparecido. Ninguém sabe dele. Fechou-se numa redoma de silêncio e parece não querer sair de lá. Dói-lhe a cabeça, está fraquinho, fraquinho, fraquinho, de tanto ter vomitado nos últimos dias. Viu o país arder com a seriedade de quem assiste a um funeral. Mas ainda os mortos não tinham sido enterrados, já a cabeça se lhe atazanava com tanta estupidez gritada ao megafone. 
   Lá da cidade, chegaram-lhe os ecos de comentadores que não sabem distinguir um carvalho de um sobreiro, um chinfrim de sentimentalidade para esquecer daqui a meia hora, teorias sobre a província vindas de quem a ela se liga porque por lá deixou uma avozinha que raramente visita, chorrilho de raivas e de fúrias mais motivados por um ódio animalesco a ministros e secretários do que por cumplicidade para com as vítimas. 
   Ouvem falar em proactividade e confundem tudo, julgam que se trata de tentar apagar fogos quando já os fogos se mostram inextinguíveis. Escutam a palavra resiliência e pensam que no campo ela tem o mesmo sentido que nas redacções dos jornais para os quais trabalham. Não contextualizam porque desconhecem, não sabem nem querem saber do cheiro das terras, das matas, dos bichos. Para eles tudo é política, o mesmo nojo de sempre com querelazinhas oportunistas face a algo nunca antes visto. 
   Não perceberam a excepção porque toda a vida têm sido excepcionais. Azar, há um mundo para lá das portagens que não é bem como imaginam. Nem tão pícaro quanto parece quando o visitam para comprar mel, nem tão atrasado mental quanto as caricaturas dos humoristas sugerem com Maximianas, Matarruanos e Corrais das Beiras. 
   O Homem do Machado podia ensinar-vos qualquer coisa. Não esperem pela Primavera, aproveitam quanto antes as temperaturas baixas. Tenho a certeza de que vos serão tão benéficas no corpo quanto na cabeça. 

domingo, 22 de outubro de 2017

NUMA PEQUENA ALDEIA DE VALPAÇOS


Vale a pena ler a história que aqui se conta. Um excerto:

A guerra tinha começado a ser preparada um par de meses antes, quando António Morais, proprietário de vários hectares de olival no Lila, percebeu que uma empresa subsidiária da Soporcel se preparava para substituir 200 hectares de oliveiras por eucaliptal para a indústria do papel. «Tinham recebido fundos perdidos do Estado para reflorestar o vale sem sequer consultarem a população», revolta-se ainda, 28 anos depois.
«Nessa altura o ministério da agricultura defendia com unhas e dentes a plantação de eucalipto.» Álvaro Barreto, titular da pasta, fora anos antes presidente do conselho de administração da Soporcel e tornaria ao cargo em 1990, pouco depois das gentes de Valpaços lhe fazerem frente.
«A tese dominante dos governos de Cavaco Silva era que urgia substituir o minifúndio e a agricultura de subsistência por monoculturas mais rentáveis, era preciso rentabilizar a floresta em grande escala», diz António Morais. O eucalipto adivinhava-se uma solução fácil.
Crescia rápido e tinha boas margens de lucro. Portugal, aliás, ganharia em poucos anos um papel de destaque na indústria de celulose e os pequenos proprietários poderiam resolver muitos problemas de insolvência abastecendo as grandes empresas com uma floresta renovada. A teoria acabaria por vingar em todo o país, sobretudo no interior centro e norte. Mas não em Valpaços.


Continuar a ler: aqui.

QUANDO A RUA FICA CHIQUE


Será que a moça sabe a história por detrás do slogan? Não sabendo, pode sempre consultar a Wikipédia: aqui.

UM ALIADO DO CINEMA

Dialogando com aqueles que transporta no seu veículo — um jovem soldado, um estudante de teologia, um taxidermista que exalta as glórias naturais (incluindo o sabor da cereja) —, Badii quer que alguém lhe garanta que o vai sepultar. Kiarostami encena-o como um buraco negro, impossível de transformar em “tema” ou “símbolo” do que quer que seja.
Observe-se o rosto impassível de Badii, interpretado por esse brilhante actor que é Homayoun Ershadi. O que nele deciframos, ou julgamos decifrar, não envolve qualquer racionalização do seu comportamento (nem do nosso olhar, importa acrescentar). Badii/Ershadi acaba por se impor como um aliado do próprio cinema, dessa capacidade insólita de registar o movimento da vida, pressentindo a nitidez indizível da morte.

João Lopes, sobre O Sabor da Cereja (aqui)

"PARA MANTER A DIGNIDADE DO TÉDIO"

Só me dás trabalho.
Havias de gostar deste preto a gritar God Save The Jungle ao tom da coroa britânica. Afinadíssimo na desafinação do mundo, como tu. Acho eu, que só me dás trabalho.
‘Inda agora dei por finda a prosa e não estou certo de ter dito metade da metade da metade que falta dizer. A gente podia começar por partir o mundo aos bocadinhos infinitos, fazer dele uma aporia de Zenão, dizer que o tempo anda à velocidade da luz e que a luz é demasiadamente vagarosa nas mãos de uma mulher.
Olho através da água o peixe amarelo e pergunto: és tu?
Mas a pergunta é um pensamento, no perguntar está a resposta. As mãos acenam à passagem do vento que espalha perguntas pela cabeça como sementes pela terra.
Meu grande cabrão, soubesse de canas com anzóis de prata e fazia-te morder o isco. Cortava-te às postas, metia-te na grelha. Que me viesses depois transformado em fumo dizer do azul que há no fundo das coisas.
És uma trabalheira. O preto passou-se.
Já não se distingue no teclado, uma passadeira de teclas brancas num tom monocórdico e, de quando em vez em quando, alguém a gritar à altura dos pedais que se sente sustenido. Coitadinho.
Há uma vantagem nisto de ir só pelo mundo, podemos sempre passar ao lado da sabedoria universal desculpando-nos com a incompreensibilidade da linguagem utilizada. O cientista diz potência, o padre diz verbo, o poeta diz luz. E o solitário não diz nada porque é como se não compreendesse e não compreendendo é como se não ouvisse. Senta-se no calhau que tem à porta de casa, acende um cigarro e levanta os pés na direcção do céu à procura de estrelas nas pontas dos sapatos.

Bem hajas pelo trabalho que me dás. Um dia destes ainda faço como o outro, levanto-me de onde estou e vou à janela espreitar a cena de pugilato. Pode ser que faça um amigo, e que ele se chame Bernardo e por amor a Deus não escreva.

SONETO DO SONETO

Catorze versos o soneto este é o primeiro
e ainda não disse nada (este é o segundo)
Mas quem diz que em três versos cabe o mundo?
Em três não cabe, só no soneto inteiro...

E eis mais uma quadra começada
que ao fim deste verso chega ao meio
Daqui a pouco está o soneto cheio
e eu ainda não disse - quase nada?!

Mas felizmente chega um terceto
e neste estou eu bem inspirado
Pena é que já acabou. Ó que chatice!

Mas vou salvar as honras do soneto
num verso belo de final dourado
que diga tudo o que atrás não disse

Rui Costa


28/07/2005 (aqui)

sábado, 21 de outubro de 2017

PARÊNTESIS

(...) [— Claro que estes eram os políticos.
As suas bocas começaram a crescer e de cada vez que
as tentavam abrir uma parte do seu corpo desaparecia.
(Um dia o presidente convidou-os para jantar
e comeu-os a todos, acabando por asfixiar numa esmeralda
tépida.)] (...)



Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, org. André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar Costa, Cláudia Souto, Margarida Vale de Gato, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, p. 145. Do poema Faca de Incêndio, que pode ser lido integralmente aqui.

BANDA SONORA ESSENCIAL #20


   Quando em Portugal a televisão tinha apenas dois canais, e gastávamos mais tempo a vê-la do que agora com duas centenas à disposição do freguês, apanhei um documentário sobre o pianista Glenn Gould. Oriundo do Canadá, Gould nasceu numa família com tradição musical. O bisavô do lado materno era sobrinho do compositor Edward Grieg. Excêntrico como só os génios podem ser, ficou célebre pelos sussurros que acompanhavam a execução das peças e são perfeitamente audíveis nas gravações. A postura corporal ao piano não era nada convencional, chegando a tirar do sério alguns puristas. No documentário supracitado, recordo-me de o ver sempre de sobretudo. Diz-se que não o abandonava, fizesse frio ou calor. Durante as gravações insistia que a temperatura da sala estivesse bastante quente, contando-se, com graça, que obrigava a tanto trabalho os técnicos de ar condicionado como os de som.
   São inúmeros os exemplos da excentricidade que caracterizou a sua personalidade, pelo que não valerá a pena concentrarmo-nos neles. Os génios têm sempre um lado picaresco que alimenta uma curiosidade mais focada na biografia e na personalidade do que nas obras outorgadas à posteridade. No domínio das obras, a gravação do recital de Salzburgo, acontecida a 25 de Agosto de 1959, dá bem conta da genialidade do pianista. Recorde-se que Gould foi o primeiro norte-americano a tocar na União Soviética depois da Segunda Grande Guerra, neste caso no ano de 1957 – com um repertório muito próximo do que se ouviu em Salzburgo dois anos depois: uma fantasia de Jan Pieterszoon Sweelinck, uma suite de Arnold Schönberg, uma sonata de Mozart, acerca de quem o pianista lamentava ter morrido demasiado velho, e as Variações Goldberg, compostas para cravo, de Johann Sebastian Bach. Esta última peça mereceu ao longo dos séculos inúmeras considerações, tendo sido tão desclassificada outrora como agora é elogiada. 
   As Goldberg Variations têm uma especial relevância no percurso de Glenn Gould, já que marcaram a sua estreia em disco no ano de 1955 oferecendo à Columbia Records o álbum de música clássica mais vendido de sempre. Talvez a inclinação do público se explique pela performance intimista, mais lenta do que seria suposto, quiçá excessivamente romantizada. Não domino os pormenores técnicos para arriscar sentenças. Baseio-me no que li. Mas baseando-me exclusivamente no que ouço, sinto haver neste como noutros momentos musicais de excepção aquele encontro isolado do artista com a sua arte. É como se ambos deixassem de ser dois e passassem a ser apenas um. Ouve-se a peça e é como se não houvesse pianista, é como se por detrás da música nada mais existisse senão música. E a música não mais é do que um sussurro reconfortante ao nosso ouvido.

A CEIBA


   Em Cuba, e noutros lugares da América, a ceiba é a árvore sagrada, a árvore do mistério. O raio não se atreve a tocar-lhe. O furacão também não.
   Habitada pelos deuses, nasce no centro do mundo e daí eleva o tronco imenso que sustém o céu.
   Para curar a arrogância do céu, a ceiba todos os dias lhe pergunta:
   - Em que pés te apoiarias, se não fosse eu?


Eduardo Galeano, in O Caçador de Histórias, trad. José Colaço Barreiros, Antígona, Setembro de 2017, p. 33.

SE A MEMÓRIA NÃO NOS FALHA


Incêndio florestal deixou de ser “crime de investigação prioritária” em 2015 graças aos votos a favor de PSD e CDS e abstenção do PS.

HOJE, NO PORTO


UM SONETO DE RUI COSTA

EM QUE POEMA TE VI NÉVOA OU BRUMA

Em que poema te vi névoa ou bruma
anémona agonizante cama ausente?
Em que recanto de meu medo te pressente
o desejo de seres todas. Ou nenhuma.

Em que silêncio poisas uma a uma
as luzes que vestiste? De repente
lamber-te o sexo querer o aroma quente
das laranjas e dizer-te que alguma

vez acabarias de nascer. Nascer.
Moscas de fogo. Em ti eu me deponho.
No teu pescoço de terra calcinada.

Acalantos. Água. Saber ou não saber
que nos faróis da noite vem o sonho
e depois do sonho não vem nada


Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, org. André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar Costa, Cláudia Souto, Margarida Vale de Gato, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, p. 89.

UM COMUNICADO DA QUERCUS

Ao longo dos séculos o Pinhal de Leiria sofreu numerosas catástrofes, como incêndios e ciclones. O recente incêndio, que devastou parte substancial do parque de Leiria no último fim-de-semana, não pode servir de desculpa para que de forma apressada e irreflectida se adoptem medidas que venham afastar a sua gestão da esfera do Estado.

Nos últimos anos várias empresas de celulose e outras têm assediado os sucessivos governos no sentido de obterem contratos de arrendamento ou de exploração de áreas florestais regidas pelo Estado, alegando que “a gestão florestal privada é melhor do que a gestão pública”. No entanto os incêndios deste ano queimaram também vastas áreas das empresas de celulose ALTRI, Navigator e de Fundos Imobiliários de Investimento Florestal, ficando assim demonstrado que a gestão de áreas florestais por parte de entidades privadas também não é a solução milagrosa para os incêndios, pois as áreas geridas por privados também ardem.

Num assunto de tal magnitude como a questão do Pinhal de Leiria, que entra mesmo na esfera da identidade nacional, o Governo não deve ter pressa e não deve ceder às pressões mediáticas e dos múltiplos grupos de interesse. Não é prudente nem ponderado decidir o destino da principal Mata Nacional, a “Joia da Coroa”, no espaço de uma semana.

Sendo Portugal o país da Europa com menor área de Floresta Pública (menos de 2%) não faz sentido entregar aos privados o que pouco resta nas mãos do Estado.

Assim, a Quercus pede ao Governo que não tome decisões apressadas no Conselho de Ministros de amanhã e que faça preceder de amplo debate público qualquer alteração que leve à diminuição da soberania do Estado sobre as Matas Nacionais.

Apesar de existirem alguns problemas na gestão desta Mata Nacional, principalmente nas suas orlas, o Estado assegurou uma gestão eficaz durante os últimos 100 anos.

É certo que poderia ter havido mais investimento em silvicultura preventiva, mas este incêndio, em particular, desenvolveu-se sob a forma de fogo de copas incontrolável, muito mais dependente da secura extrema da vegetação que se verificava, do que das opções de gestão florestal.

Em abono da verdade temos de dizer que os problemas e dificuldades, que efetivamente existem, na gestão florestal de áreas tuteladas pelo Estado em nada tem a ver com a falta de capacidade dos Serviços Florestais do Estado (atualmente Instituto da Conservação da Natureza e Florestas - ICNF), mas tem a ver sim com a falta de financiamento crónico e de esvaziamento de competências de que estes serviços têm sido vítimas dos sucessivos governos nas últimas décadas.

O caminho a seguir não pode ser o esvaziamento até à morte do ICNF, mas sim o reforço das competências e dos meios financeiros e humanos dos Serviços Florestais do Estado.

Consideramos que só o Estado pode garantir a perpetuação para o usufruto das gerações futuras, as funções ecológicas, sociais e económicas do Pinhal de Leiria, que pelas suas características e dimensões têm importância ao nível nacional e mesmo ao nível Europeu.

É fundamental que o Estado se dote de meios financeiros e humanos para fazer face à urgente e necessária recuperação e reestruturação do Pinhal de Leiria.

É necessário definir quais as áreas onde poderá ser feito o aproveitamento da regeneração natural e das áreas onde será necessário efectuar plantações.

Nos dias de hoje, com a crescente ameaça das alterações climáticas, é necessário mudar os modelos de gestão das florestas públicas, abandonando a lógica produtivista e abraçando uma estratégia que promova a conservação dos solos e da biodiversidade e começar a usar a floresta como aliada no combate às alterações climáticas.


Na íntegra, aqui.

JOSÉ SÓCRATES


Nunca votei em José Sócrates, nem sequer alguma vez simpatizei com a personagem. No entanto, dei-lhe o benefício da dúvida contra ataques de gente como Cintra Torres ou Manuela Moura Guedes ou a trupe do Correio da Manhã. Eu estava errado em dar o benefício da dúvida a um tipo que cada vez mais se confirma ser um pulha sem vergonha na cara. A atenuante de Sócrates poderá ser a doença mental. Já o desgraçado escriba não merece atenuante. E o mais repugnante é verificar que, afinal, Cintra Torres, Manuela Moura Guedes, a trupe do Correio da Manhã, tinham razões que não estavam desprovidas de razão. 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

ALIVE

"Não tarda voltamos à normalidade dos estudos."

(...)
Vegetamos, é certo, mas ainda não somos uma espécie vegetal. Com o país a sonhos, modernos, construímos auto-estradas, urbanizações desreguladas, feias, cidades esquecidas da sua história e património (isso veio muito depois), e abandonamos, com enfado, a agricultura. Vieram as ligações público-privadas, os aviões, os helicópteros, as comunicações via satélite. Festejávamos (e festejamos) a época dos fogos com foguetes. Afinal, as bouças eram boas como depósitos de lixo, de abandono, e algum sexo à beira das estradas.

(…)

Gabriel Pedro, aqui.

#102


The Wild Bunch é o título de um western realizado por Sam Peckinpah no final da década de 1960, ao qual alguns músicos de Bristol foram buscar o nome para a incubadora do projecto que viria a gerar os populares Massive Attack. Entre eles, ainda numa fase iniciática, destacou-se o frenético Tricky. O álbum de estreia, intitulado Maxinquaye (1995), granjeou-lhe um lugar na história do então chamado trip hop. Tricky diferenciou-se por uma música onde confluíam as novas tendências da música electrónica e a velha inspiração dos blues, do rock, da soul. O mais recente Ununiform (2017) recupera-o numa forma invejável, mantendo a veia sombria que caracterizou muitos dos últimos trabalhos. Dark Days é puro electro-punk, com um riff de guitarra a pautar os sussurros do maestro e a voz límpida de Mina Rose (que voltamos a ouvir no excelente Running Wild). As colaborações com vozes femininas são, de resto, uma constante que Ununiform não interrompe. Francesca Belmonte oferece o tom bluesy e espiritual a New Stole, Avalon Lurks colabora numa versão para Doll, original das Hole de Courtney Love, Terra Lopez aparece em Armor num tema ao melhor estilo electropop com uma potente malha de baixo, a actriz, modelo e mais qualquer coisa Asia Argento oferece o tom sensual a Wait For Signal, Martina Topley-Bird, companheira de sempre, encerra o capítulo das parcerias femininas. Depois há ainda a participação de Scriptonite, rapper originário do Cazaquistão, a emprestar a alguns temas a excentricidade do idioma. Ao entrar na casa dos 50, Tricky não se desvia da zona de risco onde há muito se instalou. A sua música não é tipicamente de massas, ainda que nos ofereça momentos de uma simplicidade e de uma beleza que poucos quererão questionar (por tocarem, lá está, na ferida essencial):



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O SENTIDO DAS PROPORÇÕES

Ouvi ontem uma cliente comparar o Holocausto com o que se passou recentemente em Portugal em matéria de incêndios. Vinha levantar Nudge, do mais recente Nobel da Economia Richard Thaler. 

SMSs DE LONDRES

O meu primeiro contacto com o Rui Costa ocorreu algures entre 2004 e 2005, antes da publicação de A Nuvem Prateada das Pessoas Graves (Quasi, 2005). Eu tinha um weblog intitulado Universos Desfeitos, assinava com o pseudónimo de Juraan Vink textos de que sobram alguns exemplos aqui, aqui ou aqui. O Rui encontrava-se então em Inglaterra, onde estudou e trabalhou. Pediu-me opinião sobre alguns dos seus poemas e questionou-me sobre a possibilidade de os divulgar no Universos Desfeitos. A empatia com os poemas que me apresentou foi imediata, tendo sido precisamente por aí que a nossa amizade se iniciou. Quando o livro de estreia foi premiado, eu já conhecia alguns daqueles poemas. À época, o Rui colaborava comigo num outro weblog. O Insónia surgiu da cessação do Universos Desfeitos e da minha vontade de então gerir algo colectivo, tendo sido o Rui Costa uma das primeiras pessoas que convidei para esse gozo conjunto. O primeiro post do Rui Costa no Insónia foi publicado a 25/Julho/2017, ainda não nos conhecíamos pessoalmente: «Só as loucas é que sonham com os príncipes encantados. Ou seja: altos, fortes, esbeltos, além de corajosos, gentis, amorosos, enfim, perfeitos. Isto é: chatos como a potassa posta em sossego no tubo de ensaio com uma boa meia-dose de pó de talco». Era assim o Rui, as suas palavras tinham uma força que tanto nos seduziam pela dança, como nos colocavam de atalaia pela provocação. Há um outro post dele no Insónia de que gosto muito. Não sei explicar porquê. É um post simples, que de algum modo antecipa a era Twitter e nos diz qualquer coisa sobre a distância entre o poder e as populações. Apetece-me partilhá-lo hoje aqui:

SMSs DE LONDRES

LONDRES I
Subitamente, pela primeira vez: as pessoas olhando umas para as outras.

LONDRES II
O senhor polícia veio tirar-me a lata de cerveja da mão: é proibido (disse) beber na rua em toda a área de Westminster.

LONDRES III
Dizia o António Aleixo (cito de memória mas acho que é assim), desconhecendo a cidade e os novos verbos:

Como um só não é bastante
nós vamos ter, certamente,
Um guarda por habitante
Pra que não roubem a gente.

Em muitos sítios públicos de Londres (pronto, reparei mais nos bares) pode ver-se um cartaz com o desenho de dois olhos e a frase: "A melhor arma contra o terrorismo".

LONDRES IV
Quando o blow job é ultrapassado pelo blow up job.

LONDRES V
O melhor presunto português comi-o em Londres (shame on me).

Rui Costa


30/Julho/2005

LIMPINHO, LIMPINHO

As pequenas editoras, que essencialmente só publicam poesia e têm vindo a divulgar vários e novos autores, resistindo ao espectáculo deplorável das grandes superfícies onde se vendem livros, vêem-se relegadas para segundo plano, ou para plano nenhum. É claro que pode ser alegado que as pequenas editoras, elas próprias, se remetem à penumbra, à margem. E haverá outra maneira de não chafurdar na merda?

manuel a. domingos, aqui.

REGRESSAR À NORMALIDADE


A CIA anunciou na quarta-feira que despediu uma jovem cadela que no programa de deteção de explosivos K9 (sic). A justificação? Lulu não mostrava interesse ou jeito para o trabalho.


Respigado no Diário de Notícias.

TÍTULO PARA FUTURO LIVRO: PATRÃO VASQUES

O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim, 4.ª edição, Maio de 2003, p. 53.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

PEÇO DESCULPA



Desde muito pequenas que as minhas filhas ficaram a saber quão inútil é pedirem-me desculpa por qualquer coisa errada que tenham feito. Quando era professor, dizia sempre aos meus alunos que escusavam pedir-me desculpa pelos erros que cometessem. No trabalho, que ninguém se atreva sequer a pedir-me desculpa. Sempre detestei pedidos de desculpa, são o princípio da desresponsabilização. Pedir desculpa é varrer para debaixo do tapete, é fazer esquecer o essencial, é desviar a atenção das responsabilidades. As desculpas evitam-se, costuma dizer-se. Não está mal. Ainda há pouco, Passos Coelho dizia que não tinha dificuldade nenhuma em pedir desculpas. Há muito que percebemos isso. Ele e outros como ele não têm dificuldade alguma em pedir desculpas, é a forma mais fácil de poderem continuar a cometer os mesmos erros. PSD, PS, CDS têm todos as mãos sujas nesta matéria. Todos. Proliferam por aí dados históricos que o confirmam. Não é difícil encontrá-los nos últimos 43 anos. Capitalismo selvagem, mundo rural ao abandono, promiscuidade económica, terrorismo ecológico, incúria, desleixo, ao qual devemos juntar também, sim, uma tremenda falta de civismo que continua a grassar na nossa sociedade, incultura, desrespeito pelo património, tudo isso resulta nesta miséria de um Portugal em ruínas que não foram poucos a denunciar. Se vão agora pôr trancas na porta? Não sei. Depois de Armamar em 1985, Águeda em 1986, Caramulo em 2003, depois dos 16 bombeiros mortos em 2005, depois de tantos anos consecutivos a lamentar perdas, parece-me legítimo temer que tudo mude... para ficar na mesma. A fotografia ao alto foi tirada num lugar que já não existe em pleno Pinhal de Leiria. Julgo ser suficientemente ilustrativa do cuidado e do amor que os portugueses dedicam ao seu mais rico património histórico, uma paisagem que temos vindo a destruir como se nada fosse connosco. Tudo queimado, até parece que não teríamos todos, cada um de nós na medida das suas consciência e acções, que pedir desculpa pelo sucedido, valesse de alguma coisa fazê-lo. 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

INTELIGÊNCIA E HABILIDADE

O Âncoras e Nefelibatas explica a diferença com exemplos. É só seguir os links: aqui.

UMA DÚVIDA


OS ABUTRES


Não tenho nenhuma simpatia pela ministra da Administração Interna, assim como nada me pesa na consciência enquanto eleitor. Nunca votei em nenhum dos partidos políticos que até hoje formaram governo em Portugal, perpetuando o estado absolutamente miserável da paisagem rural portuguesa num país reiteradamente assolado pelo flagelo dos incêndios. Sinto-me por isso à vontade para manifestar a minha total repugnância pela forma como certos jornalistas têm abordado a tragédia deste ano, manipulando descaradamente as afirmações da ministra Constança Urbano de Sousa e do secretário de Estado Jorge Gomes, assim como algumas do actual Primeiro-Ministro. Um exemplo recente, logo oferecido pelo Google em qualquer pesquisa relacionada com os incêndios de ontem, é o post manhoso de Bento Rodrigues no Facebook, usando sem qualquer pudor os nomes das vítimas em Pedrógão para fazer demagogia com uma frase descontextualizada da ministra Constança Urbano de Sousa. Veja-se a sequência acima. É preciso explicar a má intenção por detrás do post do jornalista da SIC? Perante isto, a proliferação de imagens com animais carbonizados, veículos calcinados, casas em chamas… é morbidez anódina.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

UMA OPINIÃO VÁLIDA

Há pouco ouvi o meu conterrâneo Eugénio Sequeira afirmar que temos dez vezes mais ignições do que o resto da Europa, e não será por sermos dez vezes mais estúpidos. Pois não, provavelmente será por sermos dez vezes menos qualificados, por termos uma administração miserável, sempre em reestruturações, com a criação de múltiplos centros de decisão intermédios, cargos de chefia e papelinhos a subir e a descer, em que aos bombeiros se veda a acção antes da decisão dos coordenadores da protecção civil, com as suas parvas boinas militares e as aldrabices nas habilitações de cursos tirados à pala das equivalências, uma das muitas burlas que grassa por este país, a somar à legislação imbecil parida uns tipos quaisquer a partir dos gabinetes para somar à pobreza e à velhice das populações rurais. 

Ricardo António Alves, no Abencerragem.

LUTO


2017 será para sempre um ano de luto. Sobre o luto, pairam os abutres. Ferreira & Ferrão na SIC Notícias são especialmente nojentos. O país a arder, e estes abutres não pensam em mais nada senão em demissões de ministros para alívio das populações. Alívio, mais que não seja. Diz o abutre Ferrão. Fazer política do jornalismo é uma trágica confusão de papéis, fazer da tragédia argumento político é simplesmente nojento. Com outros ministros seria diferente? Abutres nojentos. Na Califórnia, em Espanha, tudo a arder. A culpa é da ministra. Ganhem juízo.

DE IR ÀS LÁGRIMAS


O PARAÍSO A ARDER

A dimensão da tragédia é inimaginável a quem não esteja por perto. Para memória do que também se perdeu nas últimas horas, um post de 2014 escrito entre sombras no Pinhal de Leiria: aqui.

TÍTULO PARA FUTURO LIVRO: ESTALAGEM

Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo.

Bernardo Soares, in Livro do Desassossego, edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim, 4.ª edição, Maio de 2003, p. 46.

MÃO CRIMINOSA

Califórnia a arder, Espanha a arder, Portugal a arder... Ninguém fala da mão criminosa de Deus?

domingo, 15 de outubro de 2017

MILHÃO


Só agora reparei que a Antologia do Esquecimento ultrapassou a fasquia do milhão. Muito grato a todos quantos têm por aqui passado, sobretudo não sabendo ao que vêm. Aos comentadores, os meus sinceros agradecimentos. São, desde sempre, o salário do weblogger que vos escreve. Uma palavra especial para os anónimos que, odiando este espaço, continuam a contribuir para que seja visitado. São a garantia de um futuro risonho. 

Aos portugueses, aos americanos, aos brasileiros, aos russos, aos alemães, aos chineses, aos súbditos de Sua Majestade Britânica, aos franceses e aos espanhóis, aos catalães, aos ucranianos e demais visualizadores, bem hajam pela simpatia. Fica a promessa de que não descansarei enquanto se tornar evidente ser a Antologia do Esquecimento visitada de Tiavea por um qualquer descendente de Tuiavii. Do além, já recebemos visitas. Agradecido.  

BANDA SONORA ESSENCIAL #19



   Depois dos incêndios, veio o concerto de solidariedade. Fica sempre bem homenagear os heróis, mesmo que os relatórios voltem a confirmar a pobre humanidade a qua estamos confinados. Dois momentos marcaram a celebração. Primeiro, o Presidente da República e o ministro da Cultura, em fila escolhida a dedo no meio dos pobres, curtindo a loucura minimal repetitiva de um tal Matias Damasio. Segundo, o nosso herói Eurovision a incendiar, passe o termo, plateia e redes sociais, quase tudo em tempo real, com uma boca foleira, mas certeira, sobre peidos. O público tem destas coisas, foca-se com extraordinária eficácia e quase invariavelmente no acessório.
   Poucos terão reparado na versão de Both Sides Now oferecida por Salvador naquela noite. Que bela escolha! Gravada por Judy Collins em 1967, a canção de Joni Mitchell surgiu em 1969 num dos seus mais celebrados álbuns: Clouds. À entrada do séc. XXI, foi recuperada numa belíssima versão para a colectânea com o mesmo título. A canadiana Joni Mitchell, que é uma compositora e tanto, inspirou-se num romance de Saul Bellow para escrever o tema. Por cá, nunca lhe ligaram muito. Quem tem o mestre da bricolagem Tony Carreira, precisa de Mitchell para quê?
   Com o primeiro álbum publicado em 1968, Joni Mitchell começou por fazer sucesso à segunda tentativa com o supracitado Clouds (1969). Blue (1971) repetiu o êxito, sendo For The Roses (1972) logo do ano seguinte. Por que gosto tanto de For The Roses? Desde logo, pelas boas companhias. Graham Nash e Stephen Stills, por exemplo, surgem algures a tocar harmónica e guitarra. A influência jazz é outro forte motivo, algo que se nota logo, ainda que discretamente, nos sopros em Cold Blue Steel And Sweet Fire (canção arrepiante sobre uma viciada em heroína). A guitarra folk e o piano são a base de um álbum que explora novos territórios para o formato canção, sobre letras de uma poesia poucas vezes atingível na música dita popular. Lesson In Survival, por exemplo, fala-nos directamente ao coração sobre as dificuldades de uma relação amorosa, estabelecendo uma ponte sem tempos mortos para Let The Wind Carry Me, retrato penoso da vida doméstica.
   Mas o que me interessa mais nas canções de Joni Mitchell, sobretudo nas de For The Roses, entre as quais a que ofereceu título ao álbum pode servir de exemplo, é a eleição do mundo natural enquanto refúgio das tempestades domésticas e quotidianas. O interruptor das luzes da ribalta a ser desligado por uma necessidade de isolamento que proteja o ser das multidões, da influência traumatizante das multidões. Para lá do quarto de Hotel, a vista. E é na paisagem, debaixo de chuva, embalada pelo vento, mergulhada no sol-posto, perdida na floresta, surpreendida por borboletas e outras figuras mitológicas como as borboletas, que a canção emerge e pacifica o coração. You Turn Me On I’m A Radio obteve êxito considerável. Não é difícil perceber porquê.


A ENTREVISTA


— Como é que o senhor ganha a sua vida?

— Ó francamente… Isso é pergunta que se faça a um morto?

sábado, 14 de outubro de 2017

NUNO MOURA VEZES TRÊS



Em 1938, o então muito popular escritor português Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949), o mesmo das Palavras Cínicas (1905), reuniu um conjunto de crónicas dispersas num volume intitulado No Porão da Vida (Livraria Civilização — Editora). Entre essas crónicas, constava uma com o título Um Poeta em Rilhafoles. Para quem não saiba, Rilhafoles foi primeiro convento, depois hospital. A partir de 1911 passou a ser Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, constando hoje no seu acervo uma alargada colecção de art brut (em termos genéricos, arte produzida por artistas com perturbações mentais). Ângelo de Lima é o poeta que Sampaio foi descobrir em Rilhafoles: «Ângelo, que tinha momentos lúcidos, pediu ao director do Manicómio, o saudoso Miguel Bombarda, para ir às salas da Academia, no vélho convento de S. Francisco, ver a Exposição de Belas Artes que ali se realizava. Foi com Gameiro e, à volta, Ângelo perguntou ao seu companheiro do que é que êle tinha gostado mais na Exposição:

   — Do que eu gostei mais foi do elevador da Biblioteca.» Deixada de lado a anedota, Albino Forjaz de Sampaio oferece-nos uma biografia de Ângelo de Lima ainda hoje válida, dizendo sobre a sua poesia pouco mais que isto: «A loucura povoou abundantemente aquelas páginas, enchendo-as de guinchos, de exclamações, de trechos incompreensíveis». Servissem hoje de diagnóstico os poemas que um homem escreve, talvez o meu amigo Nuno Moura (n. 1970) não pudesse andar tão à solta. Desde sempre que a sua poesia mantém com a de Ângelo de Lima uma fascinante e indisfarçável empatia, utilizando as possibilidades do discurso poético para romper a camisa-de-forças imposta aos homens ditos normais. Por camisa-de-forças entendamos aqui, desde logo, as regras gramaticais que nos introduzem numa língua, entendamos a família, entendamos a lei, a norma, o social opressivo e repressivo, entendamos tudo quanto impõe ao homem um modo de ser que não seja da sua inteira e exclusiva vontade. 
Nuno Moura é um menino mal comportado, recusa obstinadamente obedecer à catequese do "meio" vindo há anos alimentando o sonho de uma linguagem própria, singular, única como a dos loucos a quem, por vezes, atribui-se o epíteto de poetas. Em A Minha Casa (Tea For One, 2016) recuperou um texto de 2004 onde o território familiar surge minado por uma auto-ironia demolidora do lirismo geralmente oferecido ao tema: «A minha professora primária chamava-se Aurora / e levava-me muitas vezes para uma casa / do partido comunista em Sete-Rios / com corredores científicos, da estreiteza / de que eram feitos, que eu admirava cá de baixo. // O meu pai é comunista mas que eu me lembre / nunca se demorava por lá quando me ia buscar. // A minha mãe é do pp» (p. 5). Lido atentamente o Manual de Prestidigitação, o poeta trabalha a arte do prestidigitador que, qual Harry Houdini, escapa para espanto de todos à camisa-de-forças com destreza e agilidade raras. Podíamos estar no domínio da ilusão, não nos encontrássemos antes no domínio da arte. As memórias aludidas no texto traem uma suposta verdade por detrás das palavras, encenam essa verdade para provocarem um efeito disruptivo nos tempos do leitor. 
Em Clube dos Haxixins (Douda Correira, Outubro de 2016) também vários textos de proveniência diversa são recuperados, podendo o volume ser entendido como uma espécie de antologia de dispersos. Talvez seja relevante sublinhar esta relação de Nuno Moura com o disperso, sobretudo por não estarmos a falar de um autor determinado pelo convencional. Isso reflecte-se, igualmente, na sua frenética actividade enquanto editor e performer. Não se vislumbra nesta bibliografia uma preocupação cronológica, pelo menos não tanto quanto se nos apresenta sob a forma de apanhado das circunstâncias. A nota prévia no final do livro não é casuística, ela demarca o território da desconstrução exercida nos textos. Também aqui a loucura é o ímpeto que pontua a criação. Num diálogo aberto com outras artes, a escrita automática monitoriza o drama de um humor cheio de «de guinchos, de exclamações, de trechos incompreensíveis». E de imagens que são ideias para instalações artísticas: «Deitei-me vestido, fato completo, gravata, colete. A tábua de engomar era pouco estável mas dava espaço suficiente para cruzar os braços em cima da barriga, sem tocar com a cabeça no ferro quente. O gerente da loja de roupas imediatamente em frente conseguiu que quatro seguranças do centro comercial fizessem finalmente uso do ferro» (s/p). Mais uma vez, a normalidade resulta afrontada no texto. Desta feita, não tanto pelos jogos fonéticos ou sintácticos como pela situação em si. 
Cavalo Alucinado (Douda Correira, Setembro de 2017) extrema a afronta. O método é o do recorte e da colagem. Frases provenientes do nosso quotidiano jornalístico são retiradas do contexto original e reorganizadas, por assim dizer, numa caótica sobreposição de frases que redunda numa delirante transfiguração da realidade. O poético sobrepõe-se ao informativo, o informativo traz o poético no ventre. Para quê voltar a falar nas experiências de poesia fonética levadas a cabo por Hugo Ball, nas colagens que celebrizaram Kurt Schwitters, nos jogos linguísticos de Max Bense, no humor, no sarcasmo e na ironia que Nicanor Parra cultivou com os seus “artefactos visuais” e com a “antipoesia”, nas experiências formalistas e lúdicas de Joan Brossa, nas acumulações do artista plástico Arman?… Moura mantém vivas todas estas experiências poéticas, sem compromisso que não seja o de se libertar e de nos libertar da camisa-de-forças, pois «nem todos queremos ser vítimas / de canonização, entalar um dedo na porta da cidade / ou ter que invocar menos estreias absolutas» (s/p). As 31 Orações que se seguem ao Cavalo Alucinado propriamente dito dão bem conta desse princípio libertador, insistindo numa poesia que é prática, uma prática que a não existir tornaria a nossa realidade poética muito mais entediante. Quase tão entediante quanto logra sê-lo o quotidiano desmontado num verso simples e certeiro: «a pior severidade, conversas entre libertinos».

NUNO MOURA DIZ #3:

6

guardião do estilo
a dinâmica sonora e colorida da sua obra
não esconde a água no pântano
penetra sem recorrer a 
delicadas construções etéreas
sem recorrer à ajuda
da família
as delicadas construções etéreas servem
apenas para te esconder ó guardião do estilo
a loucura lamenta ter eclipsado
o guardião do estilo
mas é de eriçar
os pêlos dos braços, a sua obra, fatalmente marginal,
sempre presente nas fases de luto para meter o dedo
na ferida, a sua obra, com aquela infame tendência
de repetir, a sua obra
ó guardião do estilo


Nuno Moura, in Cavalo Alucinado, Douda Correria, Setembro de 2017, s/p.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

NUNO MOURA DIZ #2:

(20 segundos)

y — já não te vejo há séculos.
x — isso quer dizer que não tens pensado em mim.

Nuno Moura, in Clube dos Haxixins, da secção A Função Reprodutiva no Macho (escrita automática), Douda Correria, Outubro de 2016, s/p

NUNO MOURA DIZ #1:

Fala de um amigo e de terem ido os dois
à estátua do Camões e de terem seguido
para a esquina entre o céu e a terra
(o resto da turma entrou na estátua).


Nuno Moura, in A Minha Casa, Tea For One, 2016, p. 6.

SWANS, PORTO, HARD CLUB

   Noite inusitadamente quente, as ruas percorridas de t-shirt vestida, um menino a regar a árvore do mundo. Entre turistas, confundia-se o passo acossado pela demora. Esplanadas repletas de turistas, em contraste com os cães pedintes. Mais próximo dos rafeiros, o passo procurava seu rumo na direcção da sala de espectáculos.
   Ter por referência o Palácio da Bolsa numa cidade onde apenas o rio é referência, tudo o mais sem sugestão, apenas edifícios com sorte identificados pelas sombras do granito. Tanta solidão nestes passos, tanta incompetência social. De quando em vez
um sorriso, a fachada original, o letreiro antigo, uma memória perdida nos bolsos rotos das calças.
   Pensavas que era tarde quando deste com a sala. Lá dentro, vários tons de negro agitavam-se descontraidamente ao som de uma mulher e sua concertina. De vez em quando
um homem acompanhava a mulher à viola. Ela queixava-se do estado a que chegou a América, eu pensava como era estranho ouvir aquilo vindo daquela estranha figura. Baby Dee nasceu em 1953, toca piano, harpa, concertina, trabalhou com o Antony, ostenta um semblante grotesco, fraqueza de cabelo em chamas, leva-nos de passeio por um reportório de drunk songs nas pausas do cabaret.
   Passou depressa. Encostado à esquina, o corpo manteve-se de pé. E de pé estacionou observando os vários tons de negro, ligeiras nuvens de fumo de quando em vez
assopradas para o ar.
   Tu, eu, nós, as várias pessoas de uma gramática desconexa na plateia onde o ruído tomou conta da atmosfera. Motores monocórdicos em combustão, fábricas, explosões, a erupção vulcânica de um ritual gótico, os corpos arrastados pela potência do som minimal, o mantra do ruído. Entre os vários tons de negro, sobressaiu o rabo-de-cavalo de uma rapariga sem rosto. Fixaram-se os olhos na crina ondulante, pendular, na dança dos cabelos ao estrondo, um rumor alinhado com o ritmo, os olhos cada vez mais imersos naquela dança. De vez em quando
o olhar esgueirava-se nas pontas onde o silêncio, escondido, mirava com receio a fúria lenta dos soldados. Esta guerra fará, quando muito, meia dúzia de enxaquecas. Nada que não valha o rabo-de-cavalo da rapariga sem rosto circulando no ar como as velas de um moinho, meus olhos desfeitos em lágrimas de fumo, o coração a tentar acompanhar de pé o ritual catártico oferecido por Michael Gira aos técnicos de som enxovalhados. 
   A meio da performance, o maestro irrita-se com o som. Na plateia ninguém deu por nada, entre os vários tons de negro ninguém distinguia cores quentes de cores frias. Esta América está perdida, quero eu lá saber, atomicamente pensando em nada pensar, a reflectir no vazio os cabelos da rapariga sem rosto.
   Fosse o mundo aquela dança, não traria eu os dedos tão frios em noite de Verão plena de Outono.  

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

INSANUS

Carlos Querido (n. 1956) é autor de dois romances históricos com Caldas da Rainha em pano de fundo. Insanus (Abysmo, Julho de 2017) introduz o autor num outro género, embora possamos dizer que o pano de fundo se mantém. Ao longo das 29 pequenas histórias aqui coligidas, são várias as alusões a locais, monumentos, espaços públicos facilmente identificáveis na paisagem caldense. Não é de todo original que um autor opte pelo seu lugar de origem enquanto microcosmo narrativo, estabelecendo dessa forma um nexo entre realidade e ficção capaz de armadilhar o terreno interpretativo em que o leitor se movimentará. No entanto, a paisagem geográfica é, no contexto das personagens destes contos, um elemento assessório. Muito mais determinante é o que se passa no interior de cada uma dessas personagens, na forma como percepcionam a realidade, no modo como essa percepção nos é apresentada, nos bloqueios, nas ilusões, nas confusões, nas anomalias que manifestam e as colocam num plano de insanidade não necessariamente paralelo ao da realidade, por, de facto, ser essa a sua realidade, mas de algum modo perturbador da ordem. 
Neste sentido, é deveras relevante a referência recorrente a um lugar de ordem, de norma, de lei, como o da Repartição que surge em diversos contos. «A Repartição, com as suas horas certas, com os seus formulários e os seus carimbos» (p. 40) é o local de trabalho, é o palco onde a norma se impõe à personagem mas da qual a personagem se desliga, a Repartição é o princípio da Vida de Cão (vide conto da página 43) que oprime as personagens, que as impele para o plano da insanidade, num jogo paradoxal de causa e efeito que nos permite associar a esse lugar de norma o princípio fundador das «sessões de terapia» (p. 89). «Lá na Repartição, no rame-rame do trabalho burocrático, os dias passavam assim-assim, sem sobressaltos nem novidades» (p. 99). Mas fora da Repartição os sobressaltos sucedem-se, o acaso toma conta do quotidiano, o inesperado manifesta-se, a vida ganha a forma de uma aventura nos limites do razoável, o novo é o inesperado, as palavras provocam dor, as sombras autonomizam-se, as estátuas ganham vida própria, o passado da amada fere como se fosse presente, a imaginação toma conta da razão, a vida vira-se do avesso, as memórias são como que feridas abertas, a lógica do raciocínio deixa os psiquiatras pensativos. 
Igualmente curiosa é a ligação que em alguns destes contos se estabelece entre luz e sombra. Somos tentados a julgar que, por vezes, é na sombra que a verdade melhor se manifesta. As personagens fecham os olhos, voltam-se para dentro, imersas no escuro do pensamento vêem com clareza que os olhos não logram os interstícios da intimidade. Logo num dos contos iniciais, a personagem fecha os olhos à beira do esquecimento. No conto justamente intitulado Sombras, esta frase: «As pessoas não se preocupam com as sombras, até ao dia em que perdem aquela que os deuses lhes destinaram» (p. 18). É como se à sombra se fizesse equivaler a identidade, uma identidade que os arquivos da Repartição não determinam nem a lógica da ciência desvela. Trata-se de uma identidade à qual chegamos pela via da solidão, porventura mística, perceptível apenas no silêncio da respiração mais profunda. 
No conto O Sussurro, a título de exemplo: «Fechou os olhos e confirmou o que sempre soubera: há um mundo de trevas em permanente ebulição, uma tempestade infinita, origem e fim do universo» (p. 39). Ora, uma pessoa fecha os olhos para dormir, para descansar, quando não os fecha para ver melhor. É precisamente isso que sucede nestes contos, as personagens fecham os olhos para ver melhor, fecham os olhos no encalço das suas confirmações. Insanus tenta oferecer-nos as visões daquele que fecha os olhos e imagina o mundo dos outros, a vida dos outros, a partir de personagens inquietantes nas quais a loucura e o delírio são apenas pretextos para repensar a realidade. Note-se, mais uma vez, como no já supracitado Vida de Cão a personagem descobre o caminho para casa: «Fechou os olhos para melhor descobrir o caminho para casa» (p. 45). Ao gesto de fechar os olhos corresponde um método alternativo aos métodos da razão, é um método sensível que nos devolve à casa essencial, talvez a uma paz interior que no limite se confunde com a cegueira enquanto alegoria de um afastamento relativo ao mundo visível, o da percepção, o dos fenómenos, o violento mundo dos fenómenos: «Pensou um dia que a libertação poderia estar na cegueira, porque a escuridão era o único bálsamo que conhecia, sem vísceras, nem ossos, nem sangue. Desejou-a ardentemente: uma parede sem brechas, por onde não entrasse um único raio de luz. E ficou cego. Diziam que era cegueira psicológica. Talvez. A verdade é que deixou de ver, e isso dava-lhe uma imensa tranquilidade» (p. 70).