sábado, 29 de abril de 2017

VITO ACCONCI (1940-2017)


Natural de Nova Iorque, Vito Acconci iniciou na década de 1960 uma actividade artística que viria a revelar-se fundamental, sobretudo, no domínio da performance. Fiz-lhe uma referência aqui. A ver este perfil:

UM POEMA DE HAGAR PEETERS


A NOITE PASSADA CRUZEI-ME COM OS MEUS PAIS

A noite passada cruzei-me com os meus pais,
duas figuras pálidas inclinadas
uma para a outra na luz branca de uma lanterna.

A julgar pelo estado jovial de ambos eu ainda
não tinha nascido. Eram jovens e apaixonados.
Uma tristeza profunda abateu-se sobre mim
por saber o curso que as coisas tomariam.

Ela bramiu com risos sobre algo que ele murmurou.
Ele riu estrondosamente como ainda hoje faz.
Trocámos delicadas saudações
e depois seguimos por caminhos diversos.

“Aguardem um momento”, disse-lhes eu,
por certo voltaremos a encontrar-nos um dia.
De braço dado, eles viraram a esquina em silêncio.




Hagar Peeters nasceu a 12 de Maio de 1972 em Amesterdão. Começou a publicar em 1999, com uma colectânea intitulada Genoeg gedicht over de liefde vandaag (Done enough love poetry for today). O poema cuja versão portuguesa partilho, foi vertido para a língua de Camões a partir da versão inglesa encontrada aqui.

O INFERNO

Chego, via citação da Maria, a uma bela crónica assinada por António Guerreiro. Vale a pena ler na íntegra o que pode assim ficar resumido:

Para os que procuram o paraíso do sol e do céu azul, sem constrangimentos, este clima é o “bom tempo”, como dizem os mensageiros desta monotonia meteorológica. O “bom tempo” serve na perfeição a economia actual, o turismo, a indústria do lazer. O homem da cidade vive numa ficção climática para crianças e já não sabe quando e quanto deve chover. Ele acha, aliás, que nunca devia chover nem fazer frio. E que o céu devia ser azul para sempre. Ao serviço do homem da cidade, da sua ignorância e irresponsabilidade nesta matéria, estão os jornais, a televisão, a rádio, a publicidade, toda a informação, os poderes públicos, o poder político. Todas estas vozes — unânimes — o persuadiram de que um mundo feliz é aquele em que nem uma gota de água cai do céu e nem uma nuvem o escurece para vir perturbar os momentos de lazer ou dificultar a chegada ao emprego. Por isso, ninguém atende às vozes minoritárias, anacrónicas e sem acesso ao espaço público, que gritam “isto é o inferno”.

António Guerreiro, aqui.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

UM POEMA DE PAUL CARROLL


PROVINCETOWN

O TEMPO está, como sempre, ajustando a nossa
     cadeira no cais
                                     para ficar ao sol.
                                     A Graça pode ser fria,
uma frase indiferente sobre se chove ou não;
pública, um pouco inconfortável, implicando
                                     um bárbaro cometimento.


A gente chega a esperar
apenas tanto do poente:
a canção de Lúcifer demora-se no ar; a noite
                                    vem chegando com a maré
sob o cais.
                   Saboreei o sangue de um deus
                                    em sonhos

Vim até aqui
A noite submerge barcos e a cidade, um frio
osso estremece na alma.


Vim até aqui, com medo,
sabendo
               que o homem caminha sobre as águas.


Respigo esta tradução, da autoria de Jorge de Sena, no livro Poesia e Cultura (Caixotim, Outubro de 2005), onde Paul Carroll (n. 1926 - m. 1996, Carolina do Norte, EUA) surge apresentado como «um jovem poeta norte-americano, católico (...). A sua poesia, tão densa, de uma tão contida e profunda emoção, documenta uma importante superação entre as fastidiosas pedantarias da poesia "universitária", que tem ultimamente dominado nos Estados Unidos, e um "populismo" muito convencional em que, no caminho aberto pelo grande Walt Whitman, muita poesia, e da boa, se perdeu» (pp. 139-140). Uma entrevista com o autor pode ser vista no YouTube: aqui, aqui, aqui e aqui

quinta-feira, 27 de abril de 2017

AS VIRTUDES

   Ainda a propósito desta questão, seria algo redundante procurar exemplos para o que me parece evidente: precisamos de pessoas realmente interessadas na democracia. O que a revolução nos deu é impagável, interprete-se por onde se queira. Deu-nos a possibilidade de votarmos regularmente, isto é, de escolhermos os nossos representantes, deu-nos liberdade de imprensa e de expressão, ainda que estejamos cientes das novas formas de censura e do esforço que nos exige combatê-las, deu-nos conquistas sociais impagáveis que alteraram radicalmente o panorama do país (na educação, na saúde, nos mínimos de sobrevivência). Não nos deu, como é óbvio, o que já Almada dizia faltar-nos num certo manifesto: as virtudes. Nem podia dar. Essas conquistam-se no labor de cada dia.
   Continuamos a patinar num tecido social acrítico e empobrecido pela sua própria incúria. Os militares não podiam dar-nos pessoas interessadas, exigentes, desde logo consigo próprias, moralmente aceitáveis. Da pequena cunha que suporta as oligarquias ao favorzinho simpático, o sistema transporta dentro de si mesmo o vírus da corrupção e do nepotismo. Só há uma forma de o superar, é com as vacinas da educação e da cultura. Eu, pelo menos, não sei de outra. 
   Observemos a título de exemplo, até por cautela, o que se avizinha para as próximas autárquicas: o regresso dos dinossauros. Que Isaltino seja aplaudido de pé por uma horda de fiéis seguidores, não me choca. O que de algum modo parece paradoxal é as queixinhas sobre um putativo disfuncionamento do sistema judicial e esta simpatia por um tipo político entre os raros que cumpriram crime por fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais. Afinal, quando a justiça parece funcionar é como se não funcionasse. O exemplo que poderia ter dado não serviu, pelo menos junto da tal horda de fiéis seguidores para quem nenhuma prova ou condenação demove a certeza abstrusa de uma suposta inocência. 
   Já sabemos como na mentalidade de muitos portugueses tais crimes se justificam: fez o que todos os outros fazem. Pois, o problema está em que nunca certas práticas são menos viciosas pelo simples facto de serem maioritariamente exercidas. Estes "homens do povo" são sempre perigosos, raramente servem de exemplo para o que de melhor deveríamos esperar da generalidade das pessoas. É isto que elas não querem perceber, é isto que faz sentir ser afinal tão pouco o muito que conquistámos de há 43 anos esta parte. Porque, como já dizia Almada, continuam a faltar-nos as virtudes. 

HYBRIS

Publicada em 2015, a mais recente reunião da poesia de Jorge Melícias (n. 1970) surge com uma advertência na badana de capa: «Os seis livros adunados na presente recolha (…) constituem aquilo que o autor considera relevante fixar como o seu corpus poético». São, como se refere, seis brevíssimos conjuntos (nunca excedendo a vintena de poemas), organizados entre 2004 e 2015. Manifesta se torna a obsessão do autor por uma arrumação que impõe ao conjunto da obra cisões, cortes, rasuras, num exercício poético que podemos caracterizar de rigoroso. Por detrás de tal labor residirá uma intenção que cabe ao leitor senão descortinar, pelo menos ajudar a construir através do seu subjectivo esforço hermenêutico. 
Os seis conjuntos reunidos sob o título hybris, organizados do mais recente para o mais antigo, são blocos de um só edifício, podendo entre eles ser perceptível uma narrativa que coloca os mecanismos da fé no centro de uma atormentada reflexão no interior do sujeito poético. No entanto, nenhuma poesia entre nós procura mais a antítese de certa narratividade poética do que esta. Os próprios poemas de Jorge Melícias reivindicam para si um carácter fragmentário, aproximando-se do detalhe que não esgota o conjunto. Lidos isoladamente traem a panorâmica geral, deixando num vago vazio toda e qualquer hipótese de sentido. 
Importa sublinhar, na esteira do que fez Ruy Ventura na minuciosa leitura final que acompanha esta edição, que «Jorge Melícias edificou uma estrutura textual de que nunca poderemos aproximar-nos se não formos capazes de abandonar a acédia, o langor e a abulia que nos levam à rejeição, contumaz, de tudo quanto se nos afigura incomum, perturbador ou secreto» (p. 144). Ora, esta estrutura textual de que fala Ruy Ventura começa por ser dissuasiva na regra de leitura que impõe. Despreocupada do ritmo, completamente desinteressada do sentido literal do discurso, o tom anticoloquial adoptado é um teste à resistência do iniciado. Concordamos que seja incomum e que induza certo secretismo, mas não chega a perturbar. 
Antes de mais, há todo um complexo lexical nesta poesia directamente proveniente da tradição judaico-cristã: culpa, blasfémia, fé, fiúza, piedade/impiedade, indulto, graça, oblação, penitência, apostasia, abjuração, liturgia, contrição, orago, anjos, redenção, compaixão, profanar, beatitude, enfim deus. Sucede que o sujeito poético se coloca no lugar atormentado da hybris, ou seja, num lugar de desafio à divindade, nesse lugar de provocação à ordem estabelecida que se traduz no comportamento criminoso que o último verso do livro tão bem remata: «Chega-se ao crime pelo exercício da evidência» (p. 140). Por exercício da evidência podemos talvez entender os desígnios da razão, ligados a um corpo animal que nos separa da ideia de deus e exerce o seu crime desde a concepção à ânsia de conhecer. 
O desejo de conhecimento, mormente quando assoberbado por uma vontade de alcançar a verdade divina, é o maior dos crimes cometido pelo sujeito poético, na medida em que este não só aceita para a palavra poética, como reivindica na sua assumida arrogância, uma manifestação de verdade. O sujeito encarna, deste modo, o papel do escravo que intenta libertar-se do senhor, comercializando o próprio corpo num violento processo de abjuração: «A minha devoção / exige um corpo para profanar. // Que a mesma cobardia / com que apostemo a inocência / seja no meu dorso / pasto para deus» (p. 73, do livro felonia, isto é, rebelião do vassalo para com o seu senhor). 
Não deixa de ser curioso que esta rebelião se faça acompanhar de um código tantas vezes próximo da linguagem comercial — «barganha da penúria» (p. 13), «ágio da hipocrisia» (p. 33), «veniaga da súplica» (p. 36) —, naquilo que parece constituir uma crítica aos negócios da fé que o fragmento da página 44 tão bem exprime: «Tudo se resume à mercancia / do dolo, / ao desvelo / que se concede à onzena / e à simonia. // O denodo / da mentira foi comutado / pela solércia / mais rés. // E deus tornou-se uma evasiva / a quem falta a força / da mendacidade» (p. 44, do livro profligação). Repare-se como a clareza dos três versos da estrofe final (sublinhado meu) dispensavam a linguagem excessivamente enfatuada das estrofes precedentes. 
Num outro poema, do conjunto intitulado felonia, a mesma questão é retomada: «É um comércio vesânico, / mas quando a redenção não se regateia / a usura não atalha. // Nada sei dos mercados / em que se cambiam oblações / por oragos. // Basto-me do que sou: uma fé / onde nidificam as deletérias flores / da abjuração» (p. 72). Da incubação à fome, atravessando a blasfémia e a derrocada, parece estar implícito no sujeito que assim se exprime um violento processo de libertação, o qual acaba por ser a expressão de um desassossego ontológico especialmente tocado pelas questões da teologia. Corpo e espírito são ainda nesta poesia dimensões de uma dinâmica conflituosa interior, a de uma consciência do horror predominante no mundo dos homens. 
Por detrás desta prática reflexiva vislumbramos uma mente de tipo escolástico que, confessemos, não nos perturba propriamente. Há muito assumimos dentro de nós a morte do Senhor, daí que estejamos mais empenhados na denúncia dos escravos que não são senão vítimas de si próprios. hybris [poesia reunida] (Cosmorama, 2015) é, não obstante, um objecto singular no contexto da poesia portuguesa contemporânea. Afastando-se da narratividade em voga, não deixa, porém, de ser confessional na sua reflexibilidade. Ainda que não nos toque especialmente, quer pelos temas aprofundados, quer pela linguagem praticada, seria incorrecto não reconhecer tal singularidade. Bela capa. 

[Todo o horror é uma interpelação à beleza.]


Todo o horror é uma interpelação à beleza.
E só à beleza vai buscar o seu referente.

Tudo o mais deverá ser imputado a quem vê:
a rapina
de um campo de batalha

ou os mastins
cruzando a ternura da devastação.


Jorge Melícias (n. 1970), in felonia (2013). «Convenhamos: Melícias tem escassíssimos companheiros na poesia portuguesa das últimas décadas. São raras as obras de poesia lusa que se situam num lugar tão pouco cómodo quanto aquele ocupado pelos seus poemas. Sem se ficar pela abjecção (rejeitando as propostas de certo sector do surrealismo nacional), o sujeito poético dos seus textos fala a partir do negrume, das trevas, do horror. É portanto compreensível a sua "negatividade". Os poemas não expressam, assim, virtudes (fé, esperança), moralidade ou ética, as quais seriam incompatíveis com a sua violência nascida num ambiente antropofágico, dominado por uma perturbação extrema que se antevê natural e social, ctónica e uraniana - universal, enfim. São antes uma dicção tensa entre a subjectividade, a objectividade e a metafísica, com reflexos especulares num estilo negativo, negro e agressivo que exige a aceitação de uma dádiva - o sentido "como uma presença invasora e totalizante" - e, em simultâneo, a demanda do rigor e da exactidão que obriga, por sua vez, ao "distanciamento" perante a inefabilidade da devastação e conduz a uma "estética do vago e do indistinto" (Ruy Ventura, in Violência, Libertação e Escatologia, in hybris, Cosmorama, 2015).

quarta-feira, 26 de abril de 2017

CINEMA



JONATHAN DEMME (1944-2017)


Morreu Jonathan Demme, realizador norte-americano, particularmente conhecido por dois filmes fundamentais da década de 1990: O Silêncio dos Inocentes (1991), com Jodie Foster e Anthony Hopkins nos papéis principais, e Filadélfia, com Tom Hanks a interpretar o papel de um homossexual seropositivo defendido em tribunal por Denzel Washington. A interpretação valeu a Hanks o Oscar para melhor actor. Mas com esse filme Bruce Springsteen arrecadou também uma estatueta por esta canção extraordinária:



Demme realizou ainda telediscos para os Talking Heads, UB40, New Order (The Perfect Kiss, Substance), The Pretenders, documentários sobre Neil Young, numa relação com o mundo da música que acabou por assumir na sua carreira um papel preponderante. 

INFORMAÇÃO


A quem possa interessar: para encomendar os livros da volta d’ mar, basta enviar um e-mail para voltadmar@gmail.com dizendo qual(ais) livro(s) deseja adquirir. Na resposta receberá confirmação do pedido. Mais informações: aqui. Agora, disponível também em Paralelo W: aqui. Na Letra Livre: aqui. E na Leituria: aqui.

AS VESPAS

Aristófanes terá vivido entre 447 a.C. e 385 a.C. Entre os grandes dramaturgos gregos, ocupa o reinado da comédia. Na realidade, as únicas comédias completas que nos restam da Grécia Antiga são de Aristófanes. Talvez a veia conservadora, muito crítica do regime democrático, explique a sobrevivência ao longo dos séculos. As Vespas é uma dessas obras-primas que António Lobo Vilela traduziu para português, chamando atenção para as especificidades de Aristófanes: «Aristófanes é um saudosista: desagrada-lhe o novo panorama social e político de Atenas e evoca os belos tempos de Maratona. Por isso ataca todos os inovadores: os políticos que destroem os últimos privilégios das instituições oligárquicas; os filósofos que despertam o espírito crítico e destronam os deles da Acrópole; os poetas que buscam novas fontes de inspiração; os retóricos que preparam os oradores da Eclésia. Em alguns casos é a imoralidade que ele ataca, mas, no fundo, é as instituições democráticas que pretende atingir». Tamanho conservadorismo é já por si suficientemente cómico, embora não garanta bons textos. Sucede que Aristófanes era, sem dúvida, um grande escritor. A seu favor tem, paradoxalmente, o critério da inovação. Dirigindo-se ao público, roga: «amai e honrai melhor os poetas que procuram ideias e invenções novas». Ele, um saudosista.
As Vespas são uma prova viva da sua ironia verrinosa, uma sátira que tem por objecto os juízes ou, mais propriamente, a chicana judicial em voga na Atenas de então. Bdelicléone mantém preso seu pai, o juiz Filocléone, propondo-se curá-lo do terrível vício de julgar. À guarda dos escravos Sósio e Xântias, Filocléone faz tudo para se escapulir. Como um toxicodependente, ele ressaca dos tribunais. Aristófanes recorre a várias artimanhas retóricas para garantir o riso, desde a introdução do absurdo através da evocação de sonhos que lhe permitem críticas muito severas a eminentes personalidades do seu tempo, até ao recurso a expressões populares anedóticas, trocadilhos, palavras inventadas, deficiências fonéticas. A situação é em si mesma caricata, um filho que mantém o pai à guarda de dois escravos que, por sua vez, nos informam da doença do amo: a mania dos tribunais. O tribunal aparece, deste modo, transformado numa casa de vício, os juízes são as vespas que, supostamente ao serviço da justiça, acabam por favorecer os interesses de instituições superiores cujos objectivos são oferecer ao povo uma ilusão de ordem e de equidade:

FILOCLÉONE
   Engano-me, quando administro a justiça?
BDELICLÉONE
   Não compreendes que és o joguete desses homens (demagogos), a quem prestas quase um culto. Sem dares por isso, não és mais que escravo.

A ousadia de Aristófanes é admirável, mas mais ainda percebermos como há cerca de 2500 anos estas questões podiam ser levadas à cena sob aplauso geral: «No ano seguinte ao do insucesso da 2.ª representação da comédia Nuvens, Aristófanes fez representar As Vespas com grande êxito, embora esta comédia seja uma sátira à maneira como era administrada a justiça pelos atenienses». Vejamos como, então, tomando de exemplo uma das cenas mais hilariantes da peça:

XÂNTIAS (acusador)
   Escutai agora o acto de acusação. O cão cidateniense acusa Labes de Exone de ter, sozinho e contra toda a justiça, devorado um queijo da Sicília. Que a pena seja um colar de figueira.
FILOCLÉONE
   Ou condenado à morte, se o crime se provar.
BDELICLÉONE
   Aqui está Labes, o acusado.
FILOCLÉONE
   Oh! celerado! tem mesmo cara de ladrão. Gaba-se de me enganar, cerrando os dentes. Onde está o queixoso, o cão cidateniense?
O CÃO
   Beu! Beu!
BDELICLÉONE
   Aqui está.
FILOCLÉONE
   É outro Labes, bom ladrador e lambareiro de panelas.
SÓSIO (servindo de arauto)
   Silêncio! Sentem-se! Tu, sobe à tribuna e fundamenta a acusação.
FILOCLÉONE
   Entretanto, vou beber um copo.

Entretanto, o cão dá um arroto a queijo. Está provada a acusação. O cão, de facto, roubou um enorme queijo da Sicília e banqueteou-se sem repartir o que quer que fosse com o seu dono. É um glutão. A defesa, porém, garante que se trata de um cão valente, capaz de caçar lobos. Tem várias qualidades. «Se praticou algum furto, é preciso perdoar-lhe». Uma faca é chamada a testemunhar em favor do cão. O juiz comove-se com o testemunho e acaba por absolver o cão, indo contra a sua vontade inicial. O desfecho inusitado é um retrato impiedoso da volubilidade do sistema judicial, que deixando-se emaranhar em discussões estéreis acaba por decidir mais arbitrariamente do que racionalmente. Em suma:


   Se nos examinardes com cuidado, vereis que nos assemelhamos às vespas no carácter e na maneira de viver. Em primeiro lugar nenhum outro animal é mais colérico e mais terrível quando o irritam; além disso, todas as nossas ocupações lembram as das vespas. Formamos, como elas, diversos enxames que se dispersam por diferentes colmeias; estes vão julgar com o arconte, aqueles com os onze, outros no Ódeon: alguns, encostados aos muros, de cabeça baixa, quase sem se mexerem, parecem lagartas nos casulos. A nossa indústria provê abundantemente a todas as necessidades da vida; basta-nos, para isso, dar ferroadas. Mas há entre nós zangãos preguiçosos, desprovidos desta arma, que, sem partilharem das nossas canseiras, lhes devoram os frutos. É, na verdade, uma coisa intolerável, vermos arrebatar o nosso salário por quem não toma parte nos combates e nunca empola as mãos a manejar a lança ou o remo, em defesa do país. Em suma, a minha opinião é que, de futuro, quem não tiver aguilhão não toque no trióbolo (moeda que valia três óbolos entre os gregos). 

UM NOVO 25A?

Com o passar dos anos, tendem a ser mais, ou pelo menos mais audíveis, as vozes que reclamam um novo 25 de Abril. O que este país precisa é de um novo 25 de Abril? Mas para quê? — pergunto eu. O 25 de Abril colocou fim a uma guerra perdida, abriu as portas ao regime democrático, à imprensa livre. Não é necessário desenhar um antes e depois para concluirmos o quão infinitamente melhor o país está. Não está perfeito, como perfeito nunca estará. Mas está infinitamente melhor. 
Para que querem, então, um novo 25 de Abril? Que reivindicam essas pessoas? Falam de respeito como se este se conquistasse à reguada, referem-se à corrupção como se esta fosse um cancro exclusivo da democracia, enfiam a cabeça num saudosismo anacrónico como se fosse possível impedir a marcha do tempo. Não creio que precisemos de uma nova revolução do 25 de Abril, porque essa já ninguém no-la tira. E é boa e bela.
Precisamos é de mais gente participativa, mais gente dedicada e solidária, mais gente aberta à diferença, ao outro, mais culta, verdadeiramente interessada em aprender, em melhorar e em fazer um bom uso dessa aprendizagem. Precisamos de mentes despertas que se indignem e revoltem conscientemente contra os males do mundo, começando por ser exigentes consigo próprias. Precisamos de menos chico-espertos, de mais gente honesta e resistente. 
Não precisamos de mais nenhum 25 de Abril. O que tivemos, deu-nos aquilo de que precisávamos. Faltam agora pessoas e vontade. O trilho foi desbravado, basta percorrê-lo.

terça-feira, 25 de abril de 2017

segunda-feira, 24 de abril de 2017

SEGREDO

Os presos políticos são fechados em espaços muito pequenos chamados «Segredo», uma cela diminuta sem luz natural nem espaço para andar e onde há apenas uma tábua de madeira, para eventualmente dormirem e descansarem. Os mais afortunados, especialmente estudantes universitários e indivíduos da classe média alta, podem usufruir de um espaço maior se pagarem uma diária de dez escudos, embora a cela seja igualmente fria e húmida. O preso José Augusto Baptista Lopes e Seabra deixa registada a sua experiência em 23 de Março de 1956: «Durante mais de um mês esteve enterrado numa cela húmida, de cimento, sem luz nem ar suficientes. Depois foi obrigado a pagar 10$ diários pois de contrário o ameaçavam de calabouço».
Mas a grande maioria dos prisioneiros é de origem humilde, não dispondo de meios para pagar o «alojamento», e outros, por uma questão de princípio, recusam-se a pagar para estar na cadeia. Para além disso, os presos são ainda torturados e forçados a permanecer longas horas de pé e parados, na tortura da «Estátua». Chegam a permanecer nessas posições forçadas vários dias e semanas, e são privados do sono. Ademais, diferentes vozes gritam-lhes aos ouvidos e ameaçam-nos repetidamente, sobrecarregando o seu sentido da audição e, por último, causando hiperacusia, amusia e outras desordens psicológicas e auditivas. Se alguém protesta contra essas práticas, os agentes respondem que tais métodos estão prescritos pela lei, dado que os prisioneiros se encontram sob «investigação contínua». 

(...)

Os métodos e técnicas de interrogatório são assim sumarizados:
- Estátua: posição de pé, por vezes voltado ou voltada para a parede, sem lhe tocar e com os braços abertos.
- Privação do sono: a vítima não podia dormir durante vários dias e/ou semanas.
- Maus-tratos em geral: por exemplo, queimaduras de cigarro na pele, pontapés, presos obrigados a defecar e urinar de pé ou, no caso das mulheres, à frente dos perpetradores e sob ameaças de violação,
- Uso de amplificadores e de colunas de som: vozes pré-gravadas, gritos e choros colocados em salas adjacentes e transmitidos para a sala dos prisioneiros para os convencer de que os seus amigos e familiares estavam a ser torturados.


Anabela Duarte, in Música e tortura no Estado Novo, in Flauta de Luz, n.º 4, Abril de 2017, pp. 82-93.

"Midnight Creep"


Há 50 anos, os The Doors e os The Velvet Underground lançavam álbuns de estreia. O mundo do rock fervilhava com propostas que iam do progressivo ao psicadélico. Apareceu nos escaparates Surrealistic Pillow, de Jefferson Airplane, os The Who deram o primeiro concerto nos states, Jimi Hendrix incendiou a guitarra durante uma actuação, os The Beatles lançaram Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. O amor hippie andava no ar, acompanhado por doses generosas de drogas e mortes inesperadas. Atravessar toda esta confusão e sobreviver era acto heróico. 
Bob Dylan, que havia surpreendido o mundo há não muito com a conversão à guitarra eléctrica, edita John Wesley Harding (1967). Sempre à margem das tendências, oferece ao caos instalado no meio um disco de inspiração folk, com a guitarra acústica de regresso à linha da frente, letras inspiradas em experiências místicas, algumas delas bíblicas, povoadas por personagens directamente respigadas do imaginário popular norte-americano tal o fora da lei que dá título à colectânea. Referências ao filósofo Thomas Paine, uma canção intitulada I Dreamed I Saw St. Augustine, dão bem conta do espírito de um álbum que fecha com uma das baladas mais tranquilizantes de Dylan: I’ll Be Your Baby Tonight.
Hendrix ainda faria uma versão magistral de All Along the Watchtower (uma das canções de Dylan mais tocadas por outros músicos), mas o espírito de Bob Dylan era outro. Está implícito em The Ballad of Frankie Lee and Judas Priest, uma espécie de Fausto com uma moral simples: «Well, the moral of the story / The moral of this song / Is simply that one should never be / Where one does not belong». Expiação numa balada que é também uma homenagem aos blues e às raízes de um escritor de canções que com 8 álbuns publicados entre 1962 e 1967 parecia já ter visto tudo o que havia para ver.


BASEADO NUMA HISTÓRIA VERÍDICA

— Se tivesse de escrever um filme sobre a sua vida, por onde começaria?
— Pelo Magalhães.
— O navegador português?
— Não, o computador. Foi o meu primeiro computador. Acho que foi aí que a minha vida começou.
— Ah, daí este objecto.
— Sim, isso é tudo o que sobrou do saudoso Magalhães. Um adaptador. Eu era um jovem muito revoltado contra as velhas tecnologias. Sempre que saía uma nova, dava cabo da antiga... para que os meus pais investissem na minha educação.
— Então e ao Magalhães seguiu-se…´
— O ASUS. Foi uma outra fase da minha vida, deveras importante.
— O que fazia nesses tempos?
— Ahhh… saudosos tempos... Olhe, fartei-me de viajar. Calcorreava tudo o que eram chats, caixas de comentários da imprensa on-line, weblogs, e fartava-me de comentar,
— Que assuntos?
— Não interessava, desde que fosse para desestabilizar.
— Então era um troll?
— Não, era mesmo parvo.
— E as pessoas respondiam-lhe?
— Quais pessoas?
— As pessoas com quem se metia nas discussões.
— Geralmente, não. Por vezes, sim. Raramente. Quase nunca. Nem sei bem se havia pessoas, não estou certo disso. Mas eu procurava na mesma desestabilizar. Sempre fui muito dado ao conflito e à discussão, sou um adepto do espírito crítico.
— Bem, mas a atitude do troll opõe-se exactamente ao espírito crítico.
— Não seja imbecil.
— Lá está.
— O quê?
— Não conseguiu debater um assunto sem partir para o insulto.
— Você é um palerma, nota-se que desconhece a diferença entre um troll e um hater. Não têm nada que ver uma coisa com a outra. Você fala do que não sabe, devia morrer.
— Considera-se um hater?
— Não. Simplesmente gosto de insultar pessoas, de desestabilizar, de preferência no anonimato. Diverte-me, é um passatempo que me ocupa a alma. Toda a minha vida é um passatempo, é a vantagem que retiro disto.
— Então e qual é o momento mais alto da história da sua vida?
— O Mac. Ou talvez o smartphone. Mudaram-me ambos a vida.
— Como assim?
— Pude andar para sempre conectado, 24 horas por dia, em qualquer parte do mundo, permanentemente. Nas redes sociais, nos weblogs. Os de poesia são especialmente interessantes.
— Hmmm, muito bem, gosta de poesia.
— Não. Gosto de mandar bitaites, deixar comentários do tipo: “isto não é poesia, isto é uma bosta”. Os poetas são muito sensíveis, zangam-se facilmente.
— Interessante.
— O quê?
— A sua história de vida, é realmente muito interessante.
— Julgava que se referia à minha análise sobre o temperamento dos poetas.
— Não, referia-me mesmo à sua esplendorosa vida. À sua magnífica existência. Dava um filme incrível, imensos momentos interessantes para contar aos netos.
— Não tenho netos.
— Mas vai ter.
— Nem sequer tenho namorada.
— Mas vai ter. Ou namorado. Deixe lá, isso passa. Um dia terá uma vidinha. Isso passa.

GIANT (1956)


Uma estranha aura paira sobre a personagem de Jett Rink desde o início do filme. Mantém-se e acaba solitário desde o início, sempre na sombra, à margem, observando os outros e manifestando, por breves instantes e de modo peculiar, chispas de ressentimento e de inveja. Foi o último trabalho de James Dean, precocemente desaparecido num acidente de viação a 30 de Setembro de 1955. Quem com ele contracenou em Giant/O Gigante (1956) aponta-lhe traços de carácter similares aos da sua personagem, compreensivelmente suavizados com recurso à sugestão de um exaustivo trabalho de actor que supostamente Dean nunca abandonava. Neste filme, valeu-lhe nomeação para os Oscars. Mérito dividido com Rock Hudson, que no mesmo filme consegue ombrear com Dean na categoria de Best Actor in a Leading Role. Apesar das inúmeras nomeações (mais de uma dúzia) o único a levar a estatueta para casa foi o realizador George Stevens (n. 1904 – m. 1975), que antes deste tinha assinado um dos mais icónicos westerns de todos os tempos: Shane (1953), com Alan Ladd no papel principal.
Giant é um western cuja acção decorre após o desaparecimento do Velho Oeste. Em bom rigor, devíamos chamar-lhe saga familiar. Mas o ambiente texano, com Hudson no papel do rancheiro Bick, confere-lhe a paisagem rude dos filmes de cowboys. Não é The Furies/Almas em Fúria (1950), de Anthony Mann, também uma saga familiar? E os temas estão lá, desde a segregação racial, com os mexicanos a ocuparem o papel dos índios, até às ameaças do progresso, com enormes bombas de petróleo a ocuparem uma paisagem outrora dominada por incontáveis manadas de gado. Outro elemento absolutamente central é o da presença feminina, desta feita no corpo de uma incrível Elizabeth Taylor. Menina de boas famílias instaladas em Virgínia, desloca-se para o Texas na sequência de uma paixão para a vida. Não sabe o que a espera, mas começa a aperceber-se quando ao acordar durante a viagem de comboio espreita pela janela e a paisagem arborizada deu lugar a um deserto empoeirado e hostil. Tudo lhe será hostil nessa vasta e rude terra, a começar pela cunhada: a enorme Mercedes McCambridge (como esquecê-la, era a mulher de negro em Johnny Guitar), uma fugaz opositora de Leslie Benedict, já que é curto e fatalista o seu papel. Ainda assim, valeu-lhe igualmente nomeação para os Oscars.
Só não conseguimos entender a ausência de Liz Taylor nesta lista. Ela é uma extraordinária ponte entre os extremos, uma diplomata congénita capaz de levar a sua perspectiva avante sem abrir brechas insanáveis. É ela quem garante a coesão familiar quando tudo parece colapsar, é ela que abre as vias do diálogo entre o marido e o novo-rico Jett Rink, o isolado e desamparado industrial do petróleo a quem Dean ofereceu corpo e alma. Elizabeth Taylor é a mais gigantesca figura nesta história. Tudo o que acontece, todas as cenas, todas as sequências, todos os planos, voltam-se para ela como se ela não estivesse lá. Na figura frágil de uma jovem Leslie germina um dos exemplos mais rigorosos da emancipação feminina que o cinema alguma vez nos ofereceu. As décadas que o filme retrata obrigam a retirar-lhe o brilho sensual da juventude, mas fortificam a atitude cativante de uma mãe e avó cujos princípios e valores nunca se subsumiram no acessório.
Gigantesca é, deste modo, a figura da mulher numa história encenada a partir de um romance de Edna Ferber. O resto parece acessório, ainda que não irrelevante, num elenco inacreditável que, além dos mencionados, inclui um irreconhecível Dennis Hopper, a bela Carroll Baker de How the West Was Won/A Conquista do Oeste (1962), ou o malogrado Sal Mineo (n. 1939 – m. 1976), a quem me referi aqui a propósito de filmes tais como Cheyenne Autumn (1964) e Stranger on the Run (1967). Num mundo desenhado a régua e esquadro por e para homens intrépidos e selvagens (não confundir com indígenas), a força maior que o filme de George Stevens celebra é a da figura materna. Realizador especialmente dado aos bons sentimentos, não foge da sua linha neste filme. Sem resvalar no moralismo explícito, ele parece aqui pretender glorificar a devoção materna. Não se saiu mal.

Assinalar apenas que este é mais um de muitos westerns com banda sonora assinada por Dimitri Tiomkin. 

domingo, 23 de abril de 2017

DIA MUNDIAL DO LIVRO


Não é que me tenham perguntado, mas se perguntassem a resposta não podia ser outra. O livro da minha vida é O Papalagui. Ao contrário de inúmeras pessoas sensatas, para quem a mera ideia de “um livro da vida” se apresenta como uma monstruosidade, eu borrifo-me para a sensatez com a certeza absoluta de qual é o livro da minha vida. Não é o livro que mais influenciou a minha vida, não é o livro que mudou para sempre a minha vida, não é o melhor livro que li na vida, não é o livro que mais gostei de ler na vida, é o livro da minha vida. O que é isso do livro da minha vida? Não sei, mas sei que é O Papalagui. Foi-me oferecido por uma das minhas irmãs quando fiz quinze anos, com a dedicatória em letra legível que a imagem seguinte muito bem ilustra:



A reflexão então iniciada não poderia ter tido melhor mestre. Tuiavii, chefe de uma tribo nos mares do sul, andou de viagem pelo mundo ocidental. Quando regressou à sua tribo, contou o que viu. O alemão Erich Scheurmann (1878-1957), que, ao que parece, terá escrito propaganda para os nazis, viajou para Samoa em 1914. Conta, na introdução, que conheceu Tuiavvi na «longínqua ilhota de Upolu, pertencente ao grupo de Samoa, na aldeia de Tiavéa». Aí terá recolhido os discursos de Tuiavii à sua tribo, relatos simples, directos, mas severamente críticos acerca do modo de vida ocidental. Correm versões de que Scheurmann ter-se-á baseado num livro de Hans Paasche intitulado The Expedition of the African Lukanga Mukara to the Interior of Germany. Polémicas afastadas, rasuro os créditos e concentro-me nas palavras. Em suma, numa letra menos legível do que a da minha irmã:


O Papalagui, ou seja, o homem branco, é dissecado nos discursos do chefe tribal com base em observações muito simples sobre questões mais complexas do que aparentam. Logo no discurso inicial, a obsessão com a roupa vem associada a uma concepção negativa do corpo (prisão da alma para os clássicos, pecado para os filhos de Cristo). Afirma Tuiavii: «O branco, crendo-se obrigado a muito cobrir-se para esconder a sua vergonha é parvo, é cego, é insensível à verdadeira alegria». O modus vivendi no chamado mundo civilizado fica bem delimitado no título do segundo discurso: «Das arcas de pedra, das gretas de pedra, das ilhas de pedra e do que entre elas há». Falemos de casas, diria o poeta. «Resumindo: baús de pedra com os seus muitos homens, fundas gretas de pedra correndo para um lado e para o outro, quais mil e um rios, com seres humanos lá dentro, barulho e estrondo, poeira negra e fumo por toda a parte, árvore alguma no horizonte e nada de céu azul, nada de ar puro ou de nuvens — a isto chama o Papalagui uma “cidade”, criação de que muito se orgulha». Estávamos no início do século, o Algarve, por exemplo, ainda não era o All Garve de que todos nos orgulhamos, com inúmeros hotéis à beira mar plantados e praias sem areal que chegue para tantos devotos do deus Sol.
Vem-me à memória inesperadamente um professor de Filosofia que tive no 10.º ano. Questionou se alguém na turma conhecia O Papalagui. Disse-lhe que sim. Por razões que só ele saberia, duvidou da minha resposta e tentou pôr-me à prova. Que nome dava o chefe Tuiavii ao dinheiro? Os nervos tolheram-me o pensamento, não consegui responder. Fiquei traumatizado para a vida. Quando cheguei a casa, reli todo o capítulo dedicado ao metal redondo e ao papel forte, sublinhando-o avidamente. Podia ser uma oração. Ainda estou para encontrar definição mais lógica deste nosso mundo: «Trabalha e terás dinheiro», diz uma lei moral europeia. E se tiveres muito, poderás ter muitas coisas. Por isso, trabalha muito. O dinheiro é o teu Deus, por ele sacrificarás riso, honra, consciência, felicidade, saúde e, se preciso for, até mulher e filhos. O resto é por demais conhecido. Há dias, ao reparar algures no anúncio de uma agência funerária, foi disto que me lembrei:

Até para nasceres tens que pagar e quando morreres a tua aiga (família) tem que pagar pela tua morte, para poder depositar o teu corpo na terra e pela grande pedra que te põem sobre a tumba, em sinal de recordação.


Estamos de facto na presença de um manual para a vida. Mesmo tendo em conta as especificidades do livro em causa, dificilmente encontraria melhor forma de iniciar esse processo de auto-reflexão que me foi instigado e ao qual recorro em diversas ocasiões num esforço que faço para evitar, tanto quanto me é possível, a presunção de que o mundo começa e acaba onde os nossos olhos alcançam. Gostava que as minhas filhas pudessem vir a fazer o mesmo esforço na sua relação com o mundo. Espero que o façam. Se forem por aqui, podem estar certas de que lerão um excelente livro, traduzido por uma das mais relevantes poetas portuguesas de todos os tempos, a Luiza Neto Jorge, publicado por uma editora que tem sido ao longo dos anos uma inesgotável fonte de aprendizagem, a Antígona. 

EM SUMA

Nestes vinte e cinco anos de vida em rede, diria que já li, sobre textos que publiquei, matéria suficiente para publicar um grosso volume sob o título «Aquilo que jamais escrevi». Contra isto, como diz o povo, batatas: nada a fazer. Há só que ter paciência esperar que os danos sejam mínimos e passageiros. É um preço que se paga, mandando à fava quem tiver de ser.

Rui Bebiano, aqui.

"PRÓPRIO DE SER PORTUGUÊS"

Há dias, em conversa com um autor e o respectivo editor sobre as querelas literárias da actualidade, senti-me no meio de chineses. Um rol de nomes que nada me dizem a escreverem para publicações que, em certos casos, nem sabia existirem. Descobri também que o Facebook é agora o campo de batalha predilecto dos hunos e dos cossacos e dos parabolanos (e seus respectivos séquitos) para quem a literatura é o princípio e o fim último das suas vidas. Que lhes sejam ligeiras e favoráveis, é o meu mais honesto desejo. De preferência à distância, e pela sombra. Os paizinhos que os aturem que eu tenho mais que fazer.
Há muito deixei de comprar jornais, raramente frequento a imprensa escrita, mesmo on-line, e mais ainda raramente a que aparenta dedicar alguma atenção aos livros. As minhas fontes são outras e, felizmente, tenho amigos de sobra para bom convívio. De resto, o único jornal que, a espaços, vou espreitando on-line é o Público. Tudo o mais me chega através de links em posts publicados nos weblogs aos quais dedico algum do meu tempo livre. Por exemplo, não fosse este post no Xilre, com referência a um outro no Ouriquense, ter-me-ia escapado o artigo a que ambos aludem e eu não lerei. Nada a não ser a falta de interesse me demove de ler o tal artigo, embora me tenham agradado muito estes parágrafos do Xilre:

É próprio de ser português abafar a realidade debaixo de um manto de lamentos. Mas mesmo sendo portugueses, ninguém lamenta que os cinemas não passem Aniki Bóbó. Está disponível em formato digital. Ninguém lamenta que as lojas de discos (quais são as que restam?) já não tenham as Sonatas para Cravo, de Carlos Seixas. Estão disponíveis em formato digital.
Em vez de nos lamentarmos apenas pelo que deixou de haver, congratulemo-nos com o que há. E se há, na verdade, menos livros de Agustina nas estantes das livrarias, o Centro Virtual Camões disponibiliza há bastante tempo quatro livros fundamentais da autora, inteiramente grátis, em formato digital, entre as quais A Sibila. Se quem quer conhecer a obra de Agustina começar por estes e a seguir se abalançar aos Ensaios e Artigos, tem palavras de Agustina para bons e profícuos meses. Esgotar a leitura de mais de quatro mil páginas de obras de Agustina Bessa-Luís é, em si mesmo, obra de mérito.


E pronto, é a isto que eu chamo prestar um bom serviço à nação. De borla, com a identidade subsumida no admirável desapego de um nome desinteressado: Xilre. Deus lhe pague.

UM POEMA DE SIMON ORTIZ


UMA ESTÓRIA NOVA

Há alguns anos
estive internado
no hospital dos veteranos do exército
em Forte Lyons, no Colorado.
Entregaram-me um recado para ligar a certa mulher.
Liguei-lhe.
Ouvia-a dizer:
«Ando à procura de um índio.
Você é índio?»
«Sou», respondi.
«Óptimo», disse ela.
«Vou explicar-lhe por que ando à procura
de um índio».
Assim fez.
«Todos os anos organizamos um desfile
na cidade, um Desfile do Dia da Fronteira.
É algo de estimulante e de grande relevância,
com muita gente a querer participar».
«Sim», disse eu.
«Sabe», prosseguiu ela, «o nosso tema
é a Fronteira,
e esforçamo-nos para dar o nosso melhor.
No passado, era costume fazermos
índios de papel machê,
mas isso foi há muitos anos.
«Sim», disse eu.
«Mais recentemente
conseguimos que algumas pessoas
se vestissem de índios
para dar um toque de maior autenticidade,
pessoas de carne e osso, percebe?»
«Sim», disse eu.
«Sabe», continuou ela,
«isso não nos pareceu lá muito bem,
mas surgiu um problema.
Havia falta de índios».
«Sim», disse eu.
«Este ano quisemos fazer tudo a preceito.
Corremos ceca e meca à procura
de índios, mas não conseguimos
encontrar nenhum nesta zona do Colorado».
«Sim», disse eu.
«Queremos tornar a coisa mais real, percebe,
pôr um índio a sério num carro alegórico,
não apenas um boneco de papel machê
ou um anglo vestido de índio,
mas um índio verdadeiro com penas e pinturas.
Talvez mesmo um homem-medicina».
«Sim», disse eu.
«Foi então que soubemos que estava um índio
no hospital do exército.
Ficámos tão contentes», disse ela cheia de alegria.
«Sim», disse eu,
«estão aqui vários».
«Que bom», disse ela.

Na passada Primavera
recebi outra mensagem
na faculdade onde leccionava.
Liguei à senhora.
Ficou tão feliz
que lhe devolvi a chamada.
Explicou-me então
que Sir Francis Drake,
o pirata inglês
(palavras minhas, não dela)
ia novamente atracar na costa
da Califórnia em Junho.
E continuou dizendo
que andava à procura de índios...
«Não», disse eu. Não.


Simon J. Ortiz (n. 27 de Maio de 1941, Albuquerque, Novo México, EUA), in Flauta de Luz, trad, Júlio Henriques, n.º 4, Abril de 2017, p. 51. Simon J. Ortiz nasceu «no seio da comunidade Pueblo Acoma. Quando acabou o liceu, foi trabalhar para a Kerr-McGee, uma indústria mineira de extracção de urânio. Essa experiência haveria de inspirar uma das suas mais importantes obras: Fight Back: For the Sake of the People, For the Sake of the Land». Mais informações no sítio Poetry Foundation. Entre os vários vídeos disponíveis no YouTube, sugiro esta entrevista:

sábado, 22 de abril de 2017

LANGUAGE IS A VIRUS

«entre tapumes um chinês recolheu-se / a chorar com saudades de casa»*


Contam-me que um engenheiro chinês, especializado em inteligência artificial, casou com uma mulher robot por ele criada. Talvez a partir de uma das suas costelas, não sei. O que sei é que neste caso pouco importa a veracidade dos factos divulgados. Agrada-me saber que nesta relação pelo menos uma das partes conhece bem a outra. Enfim, acho que tem tudo para correr bem. 


*É um verso de "A Grua".

quinta-feira, 20 de abril de 2017

NOSSA SENHORA



Leio no Público que a “ilha dos cães”, uma ilha-prisão para rebeldes e “terroristas” no tempo do colonialismo, prepara-se para ser transformada num centro turístico, com a construção de um resort no lugar da antiga prisão. No mesmo jornal, atenho-me à escandalosa notícia segundo a qual a Zara foi criticada por usar, numa saia entretanto retirada das montras, uma rã que é considerada um símbolo da extrema-direita norte-americana. Eis dois apontamentos noticiosos que captam bem o ar dos tempos, um ar infectado pela desvalorização da memória colectiva e por um aviltamento do simbólico enquanto energia conservadora dessa memória. Contra tal vírus é que não se conhece vacinação eficaz. Seria a educação, talvez, a cultura, por certo, essas duas dimensões da existência humana cada vez mais hipotecadas na formação de tecnocratas cuja insensibilidade esteja ao nível das competências exigidas pelo maravilhoso capital.


Ao alto, uma Nossa Senhora de Fátima em cristal, à venda no sítio da Vista Alegre pela módica quantia de €128. Já esteve a €182,60. É aproveitar. Como diz a minha amiga Maria João, não precisa de pilhas. 

ESPANHA, SÉC. XVIII






With his sharp powers of observation and his surreal imagination, in this series Goya brilliantly exposed the vices of his day and his country. He exposes the obscurantism of the Church, the corruption of those in power and office, as well as the failings of the ordinary people, in a series of prints by turn critical, enigmatic, and sometimes fantastical, peopled not only by beggars, prostitutes, drunkards and lechers, but also by ecclesiastics, lovers, hags, and gluttons.

Éléa Baucheron, Diane Routex, in The Museum of Scandals - Art That Shocked the World, Prestel, 2013, p. 48.