quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

UM POEMA DE JORGE AGUIAR OLIVEIRA

ALMOFADA ZOOM

Daquele mapa d'estradas atrás da porta
do nosso quarto, umas vezes parece-me ver
terra caindo nos tacos do soalho inocente,
papoilas e rosmaninho rompendo
para a ofuscante luz dos teus como nenhuns
olhos. Uma roda desperta, esmagando
um dedo da memória. E num aparente destino
ficou tão pequenino, a caber inteiro
na almofada. Outras vezes, avisto

linhas rectas paralelas cruzadas em brita,
alcatrão queimado com o seu cheiro
a esconder o cheiro de sangue dos cadáveres,
o verde do mapa e aquele cabrão
a dirigir-se à Andaluzia. Já não importa.

Agora estou contigo e tu levas-me
prò fim do longe onde ainda nada
nasceu sequer parecido com amor.

Então ficas tremendamente maior
que o quarto onde o teu mamilo
se torna a minha almofada.


Jorge Aguiar Oliveira, in Homens Sem Soutien, Poesia 1983-1999, Edição do autor, Julho de 2002, p. 54. Do mesmo autor, poema seguido de apontamento (aqui,) leitura do livro João Alves (aqui), leitura do livro Ranço (aqui).

POEMA, CONTO, POEMA EM PROSA, PROSA EM POEMA?


TEORIA DOS AFECTOS

Gosto muito mais dos supermercados desde que deixei a casa dos meus pais. Lembro da minha mãe dizendo que eles sempre colocam os produtos que estão quase vencendo na frente, e os mais novos atrás. Sempre achei que essa era uma verdade universal: «Todo supermercado tem a política de guardar os produtos mais novos no fundo, e deixar sempre os mais velhos na frente, para as pessoas pegarem.» Mas nem sempre isso é verdade. Hoje, por exemplo, as ervilhas do fundo da prateleira tinham exatamente a mesma data de validade das que estavam na frente. Geralmente na seção de alimentos enlatados essa regra não se aplica. Na de pães sim. Na de pães é infalível. É preciso procurar sempre os produtos mais novos, os que vão durar mais. Quando chegávamos em casa, meu pai também arrumava as compras assim. As comidas recém compradas iam para o fundo do armário, e tudo o que já estava lá dentro há mais tempo vinha para a frente. Durante um período na minha infância eu cheguei a desconfiar que meus pais haviam se conhecido num supermercado. Um dia ela estava procurando os palmitos mais novos, e ele no corredor de trás, procurando a maionese mais nova, e quando chegam ao fundo da prateleira, a prateleira não tinha fundo, e eles dão de cara um com o outro.

Luca Argel, in CONTEMSPOILERS, Mia Soave, Agosto de 2017, pp. 46-47.

DESEMBACIAR O POEMA

Para o João Paulo Esteves da Silva
Para o Nuno Moura

Nada percebe de ares
condicionados
este que me conduz,
nos carros modernos
não tem mão.

Tirou carta e meteu-se
em envelope lacrado
com destinatário certo,
previsível. A temperatura
é difícil de regular,

mas a gente tira o baço ao vidro
ouvindo cantar quem escreve,
ouvindo dançar quem canta.
A bom ou a mau porto,
chegaremos.

Não importa quando,
desde que cheguemos limpos. 

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

CONTEMSPOILERS


   Um pássaro bate asas contra o vento, olhamo-lo incrédulos. O vento é muito mais forte do que o pássaro, não nos espantaria que o pássaro fosse arrastado para fora do campo de acção do vento. Mas ele insiste em bater asas. Passa-nos pela cabeça que para o pássaro seja muito mais divertido bater as asas contra o vento do que para nós é remar contra a maré. Para o pássaro, bater asas contra o vento é um divertimento. Não é instinto, nem teimosia, que o pássaro não tem, nem obstinação, palavra que o pássaro desconhece. É pura diversão. Como a água em pedra dura.
   O fotógrafo lituano Antanas Sutkus podia ser o pássaro. Vem fotografando pessoas comuns do seu país, em cenas ordinárias, desde meados da década de 1970. Os entendidos dizem que com tamanha ousadia combateu os modelos de perfeição impostos pela estética soviética, mas não estamos certos de que para Sutkus se tenha tratado de um combate. Por sua vez, o compositor György Kurtág, nascido na Roménia, mostrou-se solidário para com os coreanos do norte que combateram os americanos na Guerra da Coreia. Mas quando Bartók foi proscrito na Hungria, Kurtág mudou-se para Paris e procurou Olivier Messiaen. Já Julius Neubronner foi um farmacêutico alemão interessado na química das imagens. Servia-se de pombos para tirar fotografias aéreas, registadas em pequenas máquinas transportadas em pleno voo. Os pombos batiam as asas contra o vento, do seu esforço surdiam divertidas imagens que eram rapidamente transformadas em magníficos postais.
   Antanas Sutkus, György Kurtág e Julius Neubronner são três nomes estranhos referidos em CONTEMSPOILERS (Mia Soave, Agosto de 2017), do músico e poeta brasileiro Luca Argel (n. 1988). Neste caso, o poeta também bate asas contra o vento. Não por instinto, que há nele uma terrível cabeça pensante a tornar misteriosas as conexões fonéticas, os divertimentos formais, o aspecto lúdico do poema na síntese irónica que faz de um postal, como na secção intitulada Coroa de Patas de Caranguejo, ou nos cruzamentos que opera entre som e significado alongando a palavra textual até àquele ponto em que ela se torna figura. Não figurada, não figurativa, mas corpo que surge da intersecção das linguagens poética e musical.
   Luca Argel, licenciado em música, com mestrado em literatura, como se encontra por aí reproduzido na imprensa, é o pássaro que bate asas contra o vento no sentido de uma linguagem própria e singular. Ele não se deixa ir na onda nem se deixa levar pelo vento, tem no horizonte um núcleo sem fronteiras onde versos e prosa dialogam como na palavra escrita dialogam imagem e som. E então os idiomas misturam-se como as artes, como as disciplinas, e tudo fica mais indisciplinado, et voilà, mais poético.
   No CD com o título Livro de Reclamações, ele mesmo irónico se o entendermos enquanto bónus editorial do livro que acompanha, “replica” a estranheza com movimentos de um rock algo roufenho, ao antiquado modo gravador de quatro pistas, desmentindo radicalmente as expectativas da palavra embalada por violão ao estilo eventualmente conhecido de youtubes e afins. Esta voz é de uma provocação à qual somos incapazes de resistir, tal como não resistimos a pássaros que batam asas contra o vento. A meio do CD, o único texto do livro, e o mais improvável, é dito sobre uma guitarra minimalista, minimalíssima, sem pontuação na cadência.
   O livro, que abre com uma secção intitulada Antífonas Cafonas, não enjeitaria, aqui e acolá, melodias orelhudas ao estilo  contemporâneo. Luca Argel faz questão de subverter, isto é, de bater asas contra o vento:

A PARTE ESCRITA

a parte escrita deste poema
sofreu alterações irreversíveis.
embora ninguém saiba exactamente quais são elas,
a parte escrita deste poema
há muito já não é a mesma.

das cinco palavras do título
nenhuma foi aproveitada.
os verbos e os pronomes
foram todos substituídos.
o último verso
não existe mais
e os outros mudaram de lugar.

o assunto e os personagens
da parte escrita deste poema
diluíram-se a cada releitura
até desaparecerem completamente.
o autor da parte escrita deste poema
está irreconhecível
e mesmo o seu nome
já tem outro significado.

da parte escrita deste poema não restou
nenhum susto,
nenhuma mancha de grafite.


   Há nisto um jogo, o jogo de defraudar expectativas superando ideias feitas. Que esperar de um jovem músico e poeta brasileiro instalado em Portugal? Que amanhe melodias sedutoras para poemas metricamente irrepreensíveis? Que desenhe sambas e bossas para sonetos? Esqueçam. O poético fundamenta-se na desconstrução de uma ideia, reafirma a liberdade do autor enquanto granadeiro no terreno das formas fixas, do imobilismo, da linguagem cristalizada por convenções e metodologias academicamente propagadas. O que resta do poema é o gesto lúdico, é a ironia da desconstrução, é aceitar que a intenção anterior ao significado é já ela mesma portadora de sentido. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

TAMBÉM ARTEMISIA

Santa Catarina de Alexandria

   Em 1611, Orazio Gentileschi contratou Agostino Tassi como tutor da filha Artemisia. Nascida na cidade de Roma, esta aprendeu a desenhar, a misturar cores, a pintar, na companhia do pai. Desde cedo revelou um enorme talento, inevitavelmente ostracizado por não ser de um tempo em que a pintura fosse coisa de ou para mulheres. Numa sociedade altamente machista, Artemisia Gentileschi era uma ameaça. Seria certamente considerada uma ameaça. Por mais inquestionável que fosse o seu talento, a condição feminina num meio dominado por homens era fragilidade que a obrigaria a extrema e inimaginável superação.
   Tudo se agravou quando Artemisia foi violada pelo tutor. As versões do acontecimento, como seria de esperar, são díspares. Crê-se que continuou a ter relações com Tassi na esperança de que casariam, vindo este a negar tais promessas quando confrontado por Orazio. Após a acusação de violação, Artemisia foi sujeita, durante um julgamento que durou sete meses, a diversos exames ginecológicos e a sessões de tortura. A veracidade do seu testemunho estava dependente da sua capacidade de resistência, que nunca cedeu. Tassi foi obrigado a abandonar Roma. Artemisia casou com um modesto artista de Florença, mudando-se para lá.
   Foi em Florença que pintou algumas das suas obras mais emblemáticas, entre as quais a versão nobre da cena de Judite a decapitar Holofernes. O contraste com a conhecida obra de Caravaggio é óbvio, sobretudo na força conferida à personagem de Judite. Há na figura pintada por Artemisia uma clara projecção da sua situação pessoal, uma espécie de vingança ensaiada com raiva e determinação. As mulheres de Artemisia são, de resto, figuras invariavelmente poderosas e imponentes, capazes de subjugar os homens e de projectarem sobre eles uma violência indescritível. Assim é também na cena que recria a relação de Jabim, rei de Canaã, e Sísera. E que dizer das opulentas mamas de Santa Catarina de Alexandria ou do olhar deleitoso lançado por Salomé à cabeça de São João Baptista? 
   Ao que parece, esta inspiradora do feminismo mais castrante teve, com consentimento do marido, um amante rico e bem colocado nos salões de Florença. Nesta história mistura-se de tudo um pouco daquilo que agora nos visita diariamente, a propósito de movimentos e contramovimentos de libertação de actrizes oprimidas, abusadas, assediadas. Actrizes e actores, conforme tendências. Há duas formas de olhar para isto, e nenhuma delas, felizmente, nos pede que façamos uso de instrumentos de tortura medievais como métodos de alcançar a verdade. 


Uma das formas de olhar para isto faz com que facilmente cedamos à tentação de julgar conforme estejamos do lado de vítimas autoproclamadas ou de confessados agressores. Depois, desculpamos ou condenamos para sempre a imagem que temos das celebridades em antena. A outra forma de olharmos para isto é um pouco mais exigente e até algo perigosa, obriga ao cada vez mais raro exercício de não tomarmos como definitiva toda e qualquer proclamação vitimadora. Mais do que histórias picantes de abuso, sedução ou assédio, temos perante nós a porca máquina das relações de poder. Quem está por cima serve-se do poder que tem para obter lucro, quem está por baixo deixa-se por vezes servir para lucrar.
A porcaria surge de termos construído uma sociedade onde é cada vez menos normal quem não tem poder ter, pelo menos, a cabeça de dizer a quem o tem uma coisa tão simples como: põe-te nas putas. Como foi possível calar durante tantos anos reiteradas situações hoje consideradas abusivas? Dizer a alguém poderoso “põe-te nas putas” tem os seus custos, é certo. Mas nunca borra a pintura. Não estou, com isto, a pôr o ónus da maldade em nenhuma das partes. Muito menos no das autoproclamadas vítimas. Prefiro pô-lo no contexto social, nesta ânsia de vencer que confunde sucesso com fama e desde cedo nos programa para a servidão. Estamos agora a falar de actrizes e de produtores de cinema porque são gente famosa e mediática. Mas porventura julgais ser diferente no condomínio onde viveis? No bairro? Na freguesia? No município? O que mais nos fragiliza, portanto, não é sermos fracos perante os poderosos, é sermos fraquíssimos perante o desejo de nos vermos colocados ao lado dos poderosos. E para isso estarmos dispostos a tudo.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

BANDA SONORA ESSENCIAL #32



   1997, passaram mais de 20 anos. Damos por isso ao mergulhar num lugar-comum que não pára de nos atormentar, como o tempo passa. Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro, membros fundadores dos Madredeus, voltavam a reunir-se após o mercado de transferências que atacou os Madredeus em meados da década de 1990. Em boa verdade, Rodrigo Leão e o acordeonista Gabriel Gomes já haviam trabalhado nos Sétima Legião. A reaproximação deu-se com naturalidade, e foi das melhores coisas que a música portuguesa tinha para oferecer no final do século XX.
   Por detrás do projecto que levou o nome de “os poetas” esteve igualmente um saudoso editor, Manuel Hermínio Monteiro da Assírio & Alvim. Mas convém sublinhar a marca do violoncelista Francisco Ribeiro, precocemente desaparecido deste mundo em 2010, que tão bem ficou sob a voz de Herberto Helder a ler No Sorriso Louco das Mães ou sob a sua própria voz no tema Quem Me Dera (Amanhã). Al Berto, que se fosse vivo faria hoje, 11/Janeiro/2018, 70 anos, é outra das vozes poéticas contempladas, num grupo onde se incluem ainda Mário Cesariny, António Franco Alexandre e Luiza Neto Jorge.
   Entre Nós e as Palavras (1997) não é, por todas e mais algumas razões, um disco qualquer. Nele a música aproximou-se da poesia para um diálogo arriscado, sobretudo tendo em conta que as gravações das vozes dos poetas são anteriores à composição musical, a qual surge tanto na forma de suporte como resposta melodiosa à palavra poética. Veja-se o que sucede com Pastelaria, de Mário Cesariny, lido sem acompanhamento, logo seguido de um instrumental, assinado por Rodrigo Leão e Gabriel Gomes, intitulado O Café dos Poetas. O diálogo dá-se com o equilíbrio da boa conversa, nenhuma voz tenta sobrepor-se à outra com argumentos contraditórios. Não é um debate, é um diálogo. Não é guerra, não há guerra.
   Entre nós e as palavras há metal fundente, diz o primeiro verso de You Are Welcome to Elsinore. Esse metal fundente pode ser o som vibrante na voz agitada, é o canto que anima a alma e ajuda o corpo a respirar, é o poderoso mantra que a palavra escrita materializa mas a dicção ergue à condição imaterial de energia. Diz-se que as palavras têm força, vigor, que emitem uma radiação própria capaz de matar, capaz de seduzir, capaz de transformar. A música é essa palavra onde o som absorve o significado mais concreto e definitivo, comunicando connosco através do que faz sentir: alegria, tristeza, nostalgia, raiva, euforia, espanto, melancolia… A música é uma provocação. Entre nós e as palavras há perfis ardentes. E há o silêncio sincopado deste diálogo tão feliz, tão feliz, tão feliz que deixa saudade.


DIGA 33 ÀS TERÇAS


ÀS TERÇAS
NO TEATRO

   Por onde anda a poesia? Quem a escreve? Quem a publica? Quem a lê? Quem são os poetas do nosso tempo? Terá a poesia leitores? Que motivações alimentam os editores de poesia?
   A ideia de organizar um ciclo de poesia no Teatro da Rainha surgiu de uma vontade de explorar territórios pouco explorados, fazer-lhes o reconhecimento e dá-los a conhecer. Propõe-se, numa fase inicial, uma digressão pela poesia contemporânea portuguesa. Queremos ouvir poetas e editores, queremos tentar perceber como mantêm viva a chama de Orfeu numa época em que a vertigem de imagens parece deixar pouco espaço à palavra.
   Condenada à morte por uns, odiada por outros, a poesia foi desde sempre uma arte controversa. Talvez hoje o seja ainda mais, pelo carácter de resistência de que se faz valer. Resistência ao imediatismo, resistência ao mediatismo, resistência ao espectáculo, entendido não como transfiguração, expressão, representação, mas antes como mera exibição de luzes capazes de levar à cegueira. 
   Avessa ao deslumbramento, a poesia espanta, subverte, baralha, desconstrói, a poesia exige daquele a quem se dirige uma predisposição para aceitar o diverso. Ora, estaremos ainda dispostos a aceitar o diverso? Como conciliar tamanha exigência com o quotidiano reducionista das redes sociais? Como manter no pensamento níveis de exigência constantemente traídos pela infantilização social?
   O espaço teatral surge-nos, pois, como um espaço privilegiado para a exploração do território poético. Também hoje o teatro nos surge enquanto modo de resistência. Com a poesia, ele partilha a inquietação e o fingimento de que falava Pessoa. Um fingimento que é a dimensão mais profunda da verdade. O actor, tal como o poeta, vê aparecer a manhã sobre a cama. Citamos Herberto, que foi poeta, que foi actor. 
   Não nos move qualquer veleidade do conhecimento. Sabemos que muitas das perguntas a que tentaremos responder não têm resposta. Não têm, pelo menos, uma resposta definitiva. Mas sabemos também que nunca o infinito foi impedimento à caminhada. Queremos ouvir quem insiste na caminhada, perceber em que direcções seguem os passos de quem caminha, queremos escutar o som das palavras directamente saídas da boca de quem as escreveu. 
   Uma vez por mês, à terceira terça-feira de cada mês, teremos um poeta e um editor de poesia, ou alguém que seja ambas as coisas, ou alguém que, não sendo nenhuma delas, insista em escrever como se fosse poeta e em publicar como se fosse editor. Privilegiaremos o contacto directo e informal através da conversa, do diálogo, da partilha de histórias e, sobretudo, da escuta de poemas. Porque a escrita e a escuta, articuladas uma com a outra, veiculam a aprendizagem. Ao cabo, outra coisa não pretendemos que não seja aprender. 

Henrique Manuel Bento Fialho


16 de Janeiro às 21h30 
Na Sala Estúdio do Teatro da Rainha
1ª sessão com Nuno Moura (autor e editor nas editoras Mia Soave e Douda Correria) e João Paulo Esteves da Silva (músico, autor, tradutor)


(fotografia copiada daqui)


guardião do estilo
a dinâmica sonora e colorida da sua obra
não esconde a água no pântano
penetra sem recorrer a
delicadas construções etéreas
sem recorrer à ajuda
da família
as delicadas construções etéreas servem
apenas para te esconder ó guardião do estilo
a loucura lamenta ter eclipsado
o guardião do estilo
mas é de eriçar
os pêlos dos braços, a sua obra, fatalmente marginal,
sempre presente nas fases de luto para meter o dedo
na ferida, a sua obra, com aquela infame tendência
de repetir, a sua obra
ó guardião do estilo

Nuno Moura, in “Cavalo Alucinado”, Douda Correria, Setembro de 2017.

Nuno Moura (Lisboa, 1970) é poeta, editor, recitador profissional. Começou a publicar em 1993. Em 1997, ganhou uma bolsa de criação literária do Ministério da Cultura. Fundou no ano seguinte, com Helena Vieira, a editora Mariposa Azual. Actualmente, é o editor da Mia Soave e da Douda Correria. Faz parte dos colectivos O COPO, Ventilan, Os Bambi e Batatas Parvas. Organiza eventos de música e de poesia. O seu mais recente livro intitula-se “Cavalo Alucinado”, como no poema de Ângelo de Lima. 


(fotografia copiada daqui)

Tenho visto morrer as livrarias;
pouco a pouco, caindo, sem remédio,
umas de incompetência, outras de tédio
ou indiferença face às correrias

das gentes e das tecnologias.
Também oiço dizer que o livro é um médio
em vias de extinção; e que no assédio
de ebooks e hi-pads, o papel tem os dias

contados. Mas não sei de que se trata
nesta nova maneira de morrer;
há livros a boiar nas prateleiras

de um armazém; o naufrágio desbarata
pérolas de poesia, brasileiras,
que sem a morte eu nunca iria ler.

João Paulo Esteves da Silva, in "Trinta e quatro sonetos e trezentas e cinco redondilhas", Douda Correria, Novembro de 2014.


João Paulo Esteves da Silva (Lisboa, 1961) é músico profissional, tendo o Curso Superior de Piano do Conservatório Nacional (1984). São inúmeras as colaborações, em concertos e discos, com músicos nacionais e estrangeiros. Desde 2009 lecciona na licenciatura em Jazz da ESML. Tem vindo a trabalhar noutras áreas como a poesia — publicando dois livros, dos quais o mais recente é o volume “Vertem-se Bíblias em Quimbundo” (2017). Traduziu dois livros do poeta israelita Mordechai Geldman. 



Próxima sessão, dia 20 de Fevereiro, com Paulo da Costa Domingos (autor e editor da Frenesi).

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

CALDAS


"Yah, eu não sou muito de ver futebol", disse um jogador do Caldas à Sport TV. E isto é bonito pa' caralho.

UM POEMA DE JOHANNES BOBROWSKI


SOB A ORLA DA NOITE

Sob a orla da noite as pequenas
cidades ao vento, de labirínticos
telhados, paredes amarelecidas,
torres. Afundando-se na paisagem.

Tendas, a desfazer-se contra o céu,
com o eco de vozes mortas,
de bocas de sinos rasgadas,
caídas e geladas da idade.

E a planície entra
pelas suas ruelas, detém-se
nas praças em frente de
portas abertas, sobre as fontes.

Mas é de noite que elas
descem os rios, na hirta
floresta das velas nos mastros,
húmidas, bandeiras pintadas
esvoaçando. Eu cheguei

sob a orla da noite, lá fora,
acocorada à entrada da
floresta, uma aldeia, igual
à cigana morena que roda a frigideira
no reflexo da luz, no meio
das faúlhas do fogo, o fumo
a traçar-lhe o risco do cabelo.


Johannes Bobrowski (n. 9 de Abril de 1917, Sovetsk, Rússia, antiga Tilsit, Prússia Oriental - m. 2 de Setembro de 1965, Berlim Leste, República Democrática Alemã), in Como Um Respirar - Antologia Poética, trad. João Barrento, Cotovia, Abril de 1990, p. 55.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

O MELHOR DOS LIVROS EM 2017

Dando continuidade à opção tomada em 2015, voltarei a elencar aqueles que foram, para mim, os melhores livros do ano, de acordo com categorias que fogem às tradicionais listas da imprensa especializada. Dessas, confesso, não fiz qualquer leitura. Chegaram-me, via amigos, brevíssimos ecos, por nelas se incluir um livro muito querido acerca do qual, curiosamente, ainda não tive o prazer de ler uma única recensão crítica. A vida como ela é, como diria o outro. Este não deverá ser considerado, porém, um momento de balanço, quer-se antes um momento de celebração do livro enquanto objecto mais do que comercializável. É também um momento de expurgação na existência do singelo livreiro que vos escreve, passado mais um ano rodeado de papéis imprimidos ao desbarato. Acrescentei algumas categorias, deixei cair no olvido outras tantas. Vou já adiantando que foi um ano fraquíssimo em sobrecapas.

Melhor cinta/Melhor Reedição

“Poemas Quotidianos”, de António Reis (Tinta-da-china, Julho de 2017)

Assim como foi um ano fraco em sobrecapas, podemos também dizer que foi parco em boas cintas. A excepção será a cinta que acompanhou a saudada reedição dos "Poemas Quotidianos", de António Reis (n. 1927 – m. 1991), com uma citação de Manuel António Pina a colocar no devido lugar a relevância desta obra. É ainda da colecção de poesia da Tinta-da-china, que tem vindo a impor-se como uma das melhores, o livro seguinte.

Melhor dedicatória

“Alguma Coisa Negro”, de Jacques Roubaud (Tinta-da-china, Fevereiro de 2017)

Não abuso se disser que todo este livro é uma extensa e pungente dedicatória a Alix Cléo Roubaud, companheira de Jacques Roubaud levada pela morte, aos 31 anos, na sequência de uma embolia pulmonar. Caído “num profundo estado de afasia”, o poeta recuperou-se nos poemas em diálogo com as memórias e os objectos de uma relação abruptamente interrompida. Foi o livro de poesia traduzida que mais apreciei em 2017.

Melhor primeira orelha/badana & Melhor Tradução

“Leviatã ou O Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros”, de Arno Schmidt (Abysmo, Outubro de 2017)

Arno Schmidt chegou finalmente à língua portuguesa, através de um exigente trabalho de tradução levado a cabo por Mário Gomes. O pormenor gráfico da primeira badana, onde não se lê senão o nome do tradutor, é uma rara mas merecidíssima homenagem a quem teve o trabalho de mudar para o idioma de Camões palavras que resistem altamente a essa mudança. Uma nota, ainda no campo da tradução, para “Nada Natural”, a pequena antologia de Gary Snyder que Nuno Marques e Margarida Vale de Gato traduziram e a Douda Correria publicou.

Melhor capa

“Antro”, de Rui Baião (Averno, Outubro de 2017)

Não é de agora a colaboração do poeta Rui Baião com o fotógrafo Paulo Nozolino, inquestionavelmente um dos melhores fotógrafos portugueses. A capa de "Antro" é uma fotografia de Nozolino, à qual inteligentemente não se sobrepôs absolutamente nada. Nem o nome do autor, nem o título do livro, nem a assinatura da editora. Impossível reproduzir aqui a luminosidade original

Melhor guarda

“Um Útero é do Tamanho de um Punho”, de Angélica Freitas (Douda Correria, Setembro de 2017)

Poderá não ser exactamente uma guarda, mas é como se fosse. No verso de capa e sobrecapa, as ilustrações de Xueh Magrini Troll adquirem uma relevância à qual será difícil escapar. São uma espécie de introdução visual ao texto, neste caso com especial pertinência. Transpõem, deste modo, o papel decorativo tantas vezes exigido à ilustração. Angélica Freitas é uma poeta e tradutora brasileira nascida em 1973. Em Portugal, tinha já publicado “Rilke Shake” (Douda Correria, Agosto de 2015).

Melhor folha de guarda/Melhor lombada

“Assassinos da Lua das Flores”, de David Grann (Quetzal, Julho de 2017)

O porte Osage, num livro que infelizmente terá escapado a leitores interessados. Reportagem jornalística aprofundada sobre um esquema de matança dos índios Osage, sequência de crimes que de algum modo esteve na origem da instituição hoje conhecida pela sigla FBI. O mesmo rosto surge na lombada, a observar-nos como um espírito que nos julga pelo peso que traz à tona em consciências adormecidas.

Melhor corte superior

Editoras de poesia independentes

Cada vez mais a edição de poesia em Portugal resulta de uma espécie de espírito de missão. Ao alto, três livros de três projectos editoriais distintos — Língua Morta, Medula, Do Lado Esquerdo — estão em representação de muitos outros, os quais afrontam o métier com aquele amadorismo, do verbo amar, que não chega às grandes superfícies comerciais. Porque estas, na sua incomensurável grandeza, têm o espaço alugado a quem reduz o livro a fonte de rendimento exclusivamente material. Apostando em valores relativamente reconhecidos, dando a conhecer outros nunca publicados ou traduzindo autores estrangeiros, estas pequenas editoras vão realizando um enorme trabalho pelo bem comum.

Melhor corte dianteiro

“O Bibliófago e mais historietas breves”, de Abel Neves (Adab edições, Abril de 2017)

O que acima afirmámos para a poesia, podíamos agora afirmar para o conto. Abel Neves tem uma vasta obra publicada, dispersa por diversas editoras com influência distinta no meio literário português. “O Bibliófago” foi talvez o melhor livro de contos que li em 2017. Não me parece que tenham sido muitos a dar por ele, escondido que andou nas estantes mais refundidas das livrarias portuguesas.

Melhor corte inferior

“Resgate”, de Fátima Maldonado (Averno, Janeiro de 2017)

Logo a abrir o ano, a editora Averno resgatou alguns textos críticos de Fátima Maldonado. As palavras de Manuel de Freitas, no prefácio, não enganam: «Não querendo parecer demasiado pessimista, receio que a liberdade (de espaço, de expressão, de estilo e de ritmo próprios) que se dava a ler nos textos de Fátima Maldonado seja hoje uma total impossibilidade. Refiro-me, claro, à imprensa, no que esta ainda possa ter de cultural. Talvez noutros lugares, embora também improváveis ou raríssimos, o livre exercício crítico possa continuar a ser praticado». Quem discordar, levante o braço.

Melhor folha de rosto

“O Grilo na Varanda — Luiz Pacheco para Laureano Barros (Correspondência, 1966-2001)”, de Luiz Pacheco, com notas de João Pedro George (Tinta-da-China, Junho de 2017)

Está toda a informação que é necessária, acompanhada de um grilo cuja autoria desconhecemos. Mas o grilo faz a diferença, neste livro que traz como bónus um filme de Paulo Pinto: “Laureano Barros, Rigoroso Refúgio”. Ainda havemos de voltar a ele por aqui.

Melhor dobra

“Diário de Um Zé-Ninguém”, de George e Weedon Grossmith (Tinta-da-china, Junho de 2017)

A colecção de humor que Ricardo Araújo Pereira coordena para a editora Tinta-da-china tem toda uma identidade gráfica que a torna inconfundível. As primeiras edições, com capa em cartolina grossa, deixam de fora as tradicionais lombadas, revelando as costuras de que são feitas estas edições. São livros onde a dobra faz a diferença. Tradução de Margarida Vale de Gato.

Melhor segunda orelha/badana

“Factotum”, de Charles Bukowski (Alfaguara Portugal, Março de 2017)

2017 foi um ano paupérrimo em matéria de segundas orelhas. O mau tratamento oferecido a esta componente do livro é generalizado, sugerindo-se a criação de uma associação pela defesa das segundas orelhas. Repetem-se soluções, abandona-se a orelha ao vazio, faz-se dela uma continuação da primeira. Segunda orelha que é segunda orelha quer-se autónoma e independente. "Factotum" surge aqui como exemplo de uma alternativa, tendo à segunda orelha sido atribuído um propósito singular e congruente. Já agora, a primeira vez que vi tal solução foi num livrinho da saudosa OVNI.

Melhor contracapa

“Somos contemporâneos do impossível”, de José Anjos (Abysmo, Dezembro de 2017)

A Abysmo é outra editora que vem apostando na poesia portuguesa. Regressando à poesia de José Anjos, de quem havia publicado, em 2015, o “Manual de Instruções para Desaparecer”, fá-lo com um extenso e, por isso mesmo, arriscado volume. Quando o que geralmente vem na capa é deixado para a contracapa, temos, então, a melhor contracapa. Assim se fez neste livro, que, tal como sucede na melhor capa do ano, deu à obra plástica de Simão Palmeirim Costa toda a primazia.

Melhor colecção

Eduardo Galeano, na Antígona

Repito-me: em 2017, a editora Antígona anunciou que iria publicar uma colecção de obras de Eduardo Galeano. Foi uma das melhores notícias que tive. Galeano é um Mestre, em maiúscula. Saíram “As Veias Abertas da América Latina”, “O Caçador de Histórias” e “Mulheres”. Noutros tempos, chamaríamos a isto um acontecimento literário. Seria celebrado com gosto e inumeráveis razões. Agora parece haver uma certa indiferença, como se fosse pouco ou nada, como se fosse irrelevante tamanho investimento em tempos de indigência.

Melhor ilustração de capa

“Siringe”, de Rosa Maria Martelo (Averno, Março de 2017), ilustração de Luís Manuel Gaspar

É extensa a colaboração de Luís Manuel Gaspar com várias editoras portuguesas, entre as quais se destaca a Averno. A ilustração que acompanha a capa de “Siringe” comprova uma mestria no desenho que poucos ousarão questionar. Neste caso, o resultado é especialmente inquietante devido à difícil relação de estabelecer entre a ilustração e o título do livro.

Melhor nota de rodapé/Melhores ilustrações

“Alucinar o Estrume”, de Júlio Henriques (Antígona, Janeiro de 2017)

Clique na imagem para ver melhor. Num ano em que tanto se falou de turismo, esta não é apenas uma mera nota de rodapé. Pode ser um tratado político, um slogan, pode ser um grito de revolta. Os desenhos de José Miguel Gervásio que acompanham “Alucinar o Estrume” fazem justiça aos textos de Júlio Henriques, observador conscientíssimo da nossa imparável decadência.

Melhor miolo

“Meninos Impossíveis”, de João Pedro Gomes (Douda Correria, Setembro de 2017)

Que dizer deste pequeno volume da colecção Puto Xarila? Os textos e os desenhos de João Pedro Gomes subvertem inteligentemente e com graça o estereótipo de menino bem comportado, tão difundido em inúmeras colecções de livrinhos para a infância. Os meninos aqui descritos têm algo especial que os torna especiais, fisionomicamente são um reflexo das manias interiores. O Fialho, por exemplo, é metade menino, metade alho. Já a Raquel, alberga passarinhos no cabelo. Clique na imagem para ver melhor.

Melhor impressão

“A cidade dos paleólogos e as viagens nocturnas do capitão Dodero”, de Miguel de Carvalho (Debout Sur L’Oeuf, Dezembro de 2017)

A Debout Sur L’Oeuf, ou simplesmente DSO, é outra das editoras que podia fazer parte das mencionadas no melhor corte superior. Miguel de Carvalho, livreiro antiquário, autor, surrealista, coloca um cuidado nos seus livros que não pode ser negligenciado. “A cidade dos paleólogos e as viagens nocturnas do capitão Dodero” é um romance-collage, dedicado a Max Ernst, iniciado em Abril de 2016 e terminado em Dezembro de 2017. Surgiu inicialmente em formato A4, adquirindo agora um formato mais convencional que não deixa de ser regalo para os olhos.

Melhor formato

“CONTEMSPOILERS”, de Luca Argel (Mia Soave, Agosto de 2017)

Um livro e um CD, interpretado como bónus editorial: “Livro de Reclamações”. Regressaremos a ele em breve. As edições da Mia Soave são sempre assim, juntam o melhor de dois mundos: o da palavra poética e o da música. Um objecto não repete o outro, complementam-se, dialogam, repercutem-se. E são quase sempre dois bens inestimáveis.

Melhor prefácio

“Lenine 2017”, de Slavoj Žižek (Elsinore, Setembro de 2017)

No ano do centenário da Revolução Russa, foi muita a bibliografia associada às comemorações. Mas raramente com o sentido devido da reflexão crítica. “Lenine 2017” é uma recolha de textos do próprio Lenine, introduzidos pelo filósofo Slavoj Žižek a partir da única questão à qual importa responder: como nos devemos relacionar hoje com o acontecimento a que chamamos Revolução de Outubro? As respostas não são fáceis nem unívocas, como Žižek bem o demonstra na sua ampla introdução.

Melhor texto de contracapa

“História Natural da Estupidez”, de Paul Tabori (BookBuilders, Março de 2017)

Palavras para quê? Clique na imagem para ler melhor.

Melhor título

“Mike Tyson para Principiantes”, de Rui Costa (Assírio & Alvim, Setembro de 2017)

Resisti à tentação de o guardar para livro do ano, embora, por razões afectivas, assim o seja para mim. Foi, sem dúvida alguma, o livro de poesia portuguesa que mais gostei de ler em 2017. Era um livro aguardado e surgiu na forma em que surgiu, com introdução do André Corrêa de Sá e prefácio da Margarida Vale de Gato. Os versos dizem o resto: «Descompreender o mundo, ou seja, seduzir / por dentro do imparável sono como a água / nasce». Sei que apareceu mencionado em algumas das tais listas especializadas, mas não me recordo de o ver objecto de qualquer recensão crítica – o que não só diz muito do país em que vivemos, como daquilo que a citação de Manuel de Freitas aponta no melhor corte inferior.

Melhor posfácio

“Antologia da Poesia Erótica Brasileira”, organização de Eliane Robert Moraes (Tinta-da-china, Novembro de 2017)

Com o sugestivo título “Da Lira Abdominal”, o posfácio de Eliane Robert Moraes para a antologia por si organizada é uma lição sobre bem ler poesia. Naquelas cerca de 36 páginas reside muito do valor desta antologia, onde o erótico, o pornográfico, o obsceno, adquirem o mais elevado grau do lirismo em língua portuguesa. Imperdível.

Melhor cólofon

“A Balada do Velho Marinheiro”, de S. T. Coleridge (Edições do Saguão, Setembro de 2017)

Clique na imagem para ler melhor. Eis um exemplo de como até o pormenor mais técnico num livro pode resultar num belo exercício criativo.

Dito isto, deixarei de fora categorias menos relevantes e altamente subjectivas. O melhor sumário, os melhores agradecimentos, a melhor epígrafe a melhor bibliografia… Menções honrosas para os livros de Simone Weil surgidos na Antígona, para a insistência no ensaio por parte de editoras tais como a Relógio D’Água ou a Cotovia, para o trabalho impressionante de uma pequena editora sediada em Lajes do Pico, a Companhia das Ilhas. Não é qualquer um que ousa dar oportunidade a obras de ficção como a “Nova arte de conceitos”, de Luís Miguel Rosa, e “O domínio material”, de João Paulo de Jesus, ambos obras de estreia, ou “Hotel do Norte”, de Rui Ângelo Araújo, romance do qual se fez uma primeira tiragem de 250 exemplares. Assim vai o nosso mundo.



Livro do ano

“Frida”, de Sébastien Perez e Benjamin Lacombe (Kalandraka, Setembro de 2017)


Com texto de Sébastien Perez e ilustração de Benjamin Lacombe, “Frida” é muito mais do que um livro. E, por ter sido publicado numa editora especializada em literatura infantil, devemos sublinhar que é muito muito mais do que um livro infantil. O texto de Sébastien Perez é um longo poema em prosa sobre a vida e a obra da pintora mexicana Frida Kahlo, ao passo que as ilustrações de Benjamin Lacombe são autênticos poemas visuais sobre exactamente os mesmos temas. Uma capa que parece ter sido bordada, os recortes no miolo, o diálogo caleidoscópico de página para página, fazem deste livro uma autêntica obra de arte. Só folheando, que dizendo não dá para acreditar.