quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

A ARTE DE AGRAFAR POEMAS

Caso ainda não se tenham apercebido, estamos no último mês de 2012. O mundo está prestes a acabar. Ia dizer que para o ano estaremos em 2013, mas as inferências nem sempre são confirmadas pelos factos. Há que deixar à nossa frente a hipótese de estarmos todos enganados, e de para o ano nem ser 2013, mas o mundo ter, de facto, acabado, ou ser 2013 e o ano ter acabado ou não ter acabado e 2012 nunca ter existido ou ou ou ou. Certo é que estas coisas são pensadas, sentidas, vividas, nem que no mundo imaginário onde se pensam coisas como haver quem detenha esse dom (ou deveria chamar-lhe função?) de pensar. Nesse mundo cabem os poetas, classe operária excluída dos mundos ideais platónicos. Os poetas operam na inconsequência, são impagáveis, saem caros, por isso tinham de ser excluídos da cidade ideal. Numa república como a nossa, neste fim do mundo à beira mar plantado, seria, no mínimo, de esperar que os poetas já estivessem há muito extinguidos. Restar-nos-iam ossos, curiosidades arqueológicas, fósseis dispostos geometricamente nos museus da literatura. Há muitos deles vivos que aparentam a respiração de um fóssil, porque neles vivos é apenas um eufemismo para estarem mais que mortos e enterrados. Curiosos os caminhos da poesia nesta terra de poetas à beira mar naufragados. Em pleno século XXI, com tanta tecnologia à mão, weblogs ao desbarato, facebook, twitter e mais porcarias congéneres, seria de esperar, no mínimo, que aí os poetas se fizessem mostrar, angariando milhares de seguidores tão interessados nos seus versos como nas javardices exibidas num reality show qualquer. Ao contrário, insistem em manter-se platonicamente excluídos, dobram os poemas em páginas A4 agrafadas ou mandam imprimir na gráfica do bairro panfletos, cadernos, folhetos onde coleccionam males, confissões, aventuras, emoções, em suma, delírios. A pergunta mantém-se: para quê gastar papel e tinta com a porra dos poemas? Para quê insistir nas tiragens de 100 amigos, convertidos nessa coisa exemplar de leitores? A verdade é que neste fim do mundo há malucos para tudo, mesmo para a poesia a copo. Tomem-se de exemplo Fernando Machado Silva (poemas da despedida, vol. II seguido de 7 poemas, Março de 2012), Hugo Milhanas Machado (Plato Chico, edição bilingue, tradução castelhana de Rebeca Hernández, Maio de 2012) e manuel a. domingos (Penumbra, Setembro de 2012). Consegue este triunvirato fazer o pior possível, ou seja, persistir no inóspito asilo da actualidade que dá pelo nome de edição de autor (fenómeno muito da crise que há centenas de anos, no mínimo, sobrevive por terras lusas). Portugal é, sem dúvida alguma, um país de poetas. Constatação ‘inda mais surpreendente quando confirmamos não ser um país de leitores de poesia. Se o fosse, não teria, como na política, os poetas que merece. Teria, pelo contrário, a poesia imerecida de um Fernando Machado Silva (n. 1979), de um Hugo Milhanas Machado (n. 1984), de um manuel a. domingos (n. 1977). Porque o que esta rapaziada faz  - perdoe-se-me a presunção, que já estou nos 38 - é alimentar a esperança ao fazê-lo assim, deste modo. Sabemos bem que desejam ser admirados, mas também percebemos a diferença entre o desejo e a ambição. Desejarão ser lidos, mais que não seja pelos 100 amigos convertidos em exemplares leitores. O mais importante é que desejam fazer, concretizar, arrumar a voz, actuar no palco devoluto da poesia. E nesse palco eu estendo o jornal e nele me deito, nesse palco busco abrigo e pasto a filha da puta da esperança. No meu diário íntimo escrevi o que agora partilho em registo pós-moderno: consolam-me mais estas páginas agrafadas, dobradas, do que centenas de livros que só não atiro para a fogueira por respeito ao dinheirinho que tanto custa conquistar. A edição de autor de Fernando Machado Silva confirma as nossas suspeitas: temos parêntesis com fartura, uma língua em busca de ofício, quer dizer, uma língua em busca de leitores que aí suspendam os preconceitos da linguagem e se deixem embalar pelo lirismo da forma. Se alguém disser que há muito aqui a apurar (no sentido de libertar), tem razão. Mas onde nada há a apurar é que não vemos remédio. Estes poemas, estigmatizados pelo pretérito da memória, espantam quando soltam fogachos de paixão, como essa “grafia da pupila” que ficámos a invejar por nela revermos o programa de quem mais que pela boca fala pelos olhos. Já Plato Chico põe-nos a dançar. Tenho uma teoria nova, muito recente. Os melhores poetas são DJs frustrados. Hugo Milhanas Machado é ciclista, não sei se pedala nas pistas de dança. Pelo menos, tem a estranha capacidade de fazer dançar a leitura. Atira-nos com o mar às trombas em dias deprimentes, mete-nos a pensar em palmeiras e miúdas inesquecíveis quando somos já tão-somente uma memória perdida nos labirintos do passado. Um crítico tenderia a falar de elipses, mas o crítico não dança. Limita-se a bater o pé, muito contidamente, como que temendo gastar os músculos à medida das solas. Por isso terá sempre dificuldades em perceber as frases escangalhadas, o passo lento de quem mais que passar pelas coisas contempla-as e se deixa absorver por elas para nelas se sentir alguém. O mérito destes tão parcos poemas é fazerem-nos delirar, cobram-nos a postura com uma espécie de irresistível tentação. Não é preciso citá-los, na medida em que se não cita a terra onde se plantam árvores de fruto. Simplesmente apontamos as coordenadas do texto e tudo vimos convergir para um lugar onde dá vontade de, digamos, dançar. Bem diferente é a Penumbra de manuel a. domingos, poeta simplista a fazer-se de parvo onde há uma melancolia doméstica resolvida da única maneira possível. E essa maneira possível única reside em obviar o óbvio, simplesmente simplificar a mais complexa das dimensões humanas. Digo: doméstico; mas sei que ao dizê-lo digo também o contrário. Isto é, a dúvida que assombra tudo é esse tédio do absurdo a que certos existencialistas chamaram náusea. Creio que manuel a. domingos é um poeta do absurdo (talvez involuntariamente, talvez não). Mesmo quando escreve poemas tão pueris como esse último, com almofadas debaixo do cu, ou aqueloutro com cabelos brancos na idade de Cristo, ele revela a estupidificação das vidas comuns, as nossas, as dos poetas, esses seres fantásticos e únicos, excluídos pelo filósofo da cidade ideal, incluídos por si próprios na República da parvalheira. Aqui abraçam a mulher no silêncio da casa, remexem o café nos lugares-comuns de Outubro, olham para tudo sem novidade e para o resto sem surpresa… Neles, o que mais espanta é a ausência de espanto. Mesmo quando são surpreendidos pela inocência do riso e nos fazem dançar (entre parêntesis). Grato.

3 comentários:

benjamim machado disse...

obrigado eu/nós. talvez ainda haja prendas antes do fim do ano! a ver vamos.

abraço

hmbf disse...

apaguei duas capas

esta porra aparecia-me toda desformatada

assim fica legível

saúde

manuel a. domingos disse...

abraço